Falta de ferro faz camundongo macho desenvolver ovários, diz estudo

Estudo japonês mostra que falta de ferro pode feminilizar embriões XY
Estudo japonês mostra que falta de ferro pode feminilizar embriões XY.
Estudo japonês mostra que falta de ferro pode feminilizar embriões XY. (Foto: Reprodução)

Alterar o metabolismo do ferro durante a gravidez é capaz de fazer com que camundongos geneticamente pertencentes ao sexo masculino se desenvolvam como fêmeas, indica um surpreendente estudo liderado por pesquisadores japoneses. Ainda não está claro se a possibilidade se aplica a outros mamíferos, como o ser humano.

A pesquisa, publicada na última quarta-feira (4) na revista científica Nature, mostrou que a disponibilidade de ferro no organismo é importante para a ativação de uma área-chave do DNA dos roedores, localizada no cromossomo Y, a marca genética da masculinidade na espécie. Em mamíferos, o mais comum é que fêmeas tenham dois cromossomos X, enquanto machos costumam portar um cromossomo X e um Y em seu material genético.

Sem ferro suficiente disponível, porém, ao menos alguns embriões de camundongos que são XY sofrem alterações no desenvolvimento de seus órgãos sexuais. Chegaram a desenvolver dois ovários no lugar dos testículos, ou então a combinação inusitada de um ovário e um testículo no mesmo corpo.

O novo estudo, coordenado por Makoto Tachibana, da Universidade de Osaka, é mais um exemplo da importância da chamada epigenética. O nome é empregado para designar alterações bioquímicas que deixam intacto o DNA propriamente dito, mas ainda assim têm impacto muito grande sobre o funcionamento do organismo, em especial durante as etapas do desenvolvimento embrionário.

Alterações epigenéticas são essenciais, por exemplo, para o processo de especialização das células que acontece paulatinamente após a fecundação e durante a gestação. Afinal de contas, embora todos os mamíferos (e muitos outros animais) comecem sua vida como uma única célula, é preciso que ela se divida, multiplicando-se em trilhões de outras células, ao longo da vida.

Como a grande maioria dessas células terá basicamente o mesmo DNA da célula original, o que muda é o padrão de ativação e desativação das células surgidas a partir dela, permitindo que algumas se transformem em neurônios do cérebro, outras em células musculares nos membros ou no coração e assim por diante.

Esses processos também são cruciais para a arquitetura celular que, em determinado momento da gestação, faz com que o desenvolvimento do feto desemboque no sexo biológico feminino ou masculino. A equipe de Tachibana havia destrinchado a ocorrência de um desses fenômenos num trecho do cromossomo Y dos embriões de camundongos.

Trata-se da região do gene Sry, considerado um dos mais importantes para a formação dos testículos. Os pesquisadores identificaram uma enzima (molécula-chave para reações bioquímicas) que "limpa" uma marcação epigenética nesse gene.

É como se o gene Sry estivesse com uma etiqueta dizendo "gene desligado, favor não usar". Tal etiqueta molecular fica presa no "empacotamento" do DNA, em substâncias chamadas histonas. Uma vez que a enzima remove a etiqueta, o gene pode ser "lido" pela célula e a formação de testículos no embrião segue seu curso normal.

Acontece que, para fazer esse trabalho, a enzima necessita da presença de íons (átomos eletricamente carregados) de ferro (na notação química, Fe2+). O ferro, claro, também é um mineral importante para uma série de outros processos no organismo, o que significa que, em situações normais, as gestantes de qualquer espécie de mamífero fazem todo o possível para obter uma dieta com níveis suficientes dele.

O que aconteceria, porém, se a presença de Fe2+ no organismo fosse reduzida drasticamente? Os pesquisadores de Osaka testaram essa ideia de diversas formas, seja alterando geneticamente as camundongas para que elas não carregassem mais trechos de DNA necessários para o metabolismo correto do organismo, seja ministrando a elas fármacos que produzem um efeito parecido de dificuldade de absorção de ferro. E, por fim, também cortaram radicalmente a presença do mineral na dieta delas.

No primeiro caso, 7 de 39 embriões XY desenvolveram ovários. No segundo, a mesma coisa ocorreu em 5 de 72 embriões XY. No caso da alteração da dieta, isso, por si só, não alterou de forma óbvia o desenvolvimento dos órgãos sexuais. Porém, quando os pesquisadores introduziram nos camundongos uma alteração no DNA que dificultava "retirar a etiqueta" epigenética, houve casos de formação de óvulos em animais XY também.

Embora eventos como esses provavelmente sejam bastante raros na natureza, os pesquisadores chamam a atenção para o fato de que podem acontecer mudanças mais sutis no desenvolvimento sexual com a carência de ferro, inclusive afetando outras regiões reguladas por mecanismos epigenéticos. É algo que deve ser objeto de mais pesquisas no futuro.