Cosplayer de Teresina fala sobre sexualização e resistência no meio

Kellynara Karenn transforma paixão por animes em arte com cosplay
Orgulho e representatividade: ser quem se é através da fantasia.
Orgulho e representatividade: ser quem se é através da fantasia. (Foto: Reprodução)

Na sala de casa, em Teresina, entre agulhas, tecidos, action figures e pincéis, vive Kellynara Karenn Carneiro Pacheco Silva, 29 anos. O nome longo combina com a lista de personagens que ela já interpretou em 14 anos como cosplayer. Uma lista onde cada nome carrega uma memória, um esforço, uma escolha. Mas também uma resistência.

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Orgulho e representatividade: ser quem se é através da fantasia

“Desde a infância, minha mãe sempre gostou de animes e alguns conheci através dela”, lembra. “Comecei a procurar mais sobre esse universo e cada vez mais fui ficando interessada. Inclusive essa paixão por animes é um dos motivos de eu fazer cosplay hoje.”

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Arte, resistência e identidade: quando o cosplay vai além da roupa.

O que começou como um fascínio infantil virou projeto de vida. Aos 15 anos, ela vestiu sua primeira fantasia: uma versão feminina de Itachi, personagem de Naruto. O impacto veio logo no segundo cosplay. “Fiquei mais conhecida no meio com meu segundo cosplay do anime Inuyasha. Foi uma experiência muito gratificante as pessoas me reconhecerem vestindo um personagem que eu amava tanto!”

Hoje, o nome de Kellynara ecoa em eventos geeks do Piauí e em redes sociais. Mas seu coração permanece com um só nome: Tsunade. “Sem dúvidas, desde o colégio sempre me identifiquei muito com a personalidade dela, muito forte, decidida e impactante.”

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Kellynara caracterizada como Tsunade, sua personagem favorita do universo Naruto.

Os cosplays que cria levam semanas. Alguns, até um mês. “É necessário tempo e muita dedicação para fazer um bom cosplay. É um hobby que exige bastante dedicação. O meu cosplay mais caro custou em torno de 400 reais.” Parte do processo é solitário, mas ela não está sozinha. “Eu produzo alguns acessórios, porém tenho ajuda às vezes dos meus amigos @lipedash, @tsukuyomiura, e minha vó dona Neli que é uma excelente costureira e confecciona minhas roupas.”

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Na passarela ou no evento, o cosplay como forma de expressão pessoal

Apesar de todo o esforço e arte envolvidos, ainda há quem olhe torto. Ainda há quem enxergue apenas o corpo, e não a construção por trás da fantasia. Kellynara fala disso com uma firmeza lapidada por anos de vivência: “Cosplay é uma arte. Envolve muita dedicação, cuidado no preparo de cada detalhe, a performance para ter o máximo de fidelidade possível ao personagem interpretado. É um conjunto de emoções.”

E é justamente esse “conjunto de emoções” que tantas vezes é reduzido à objetificação. Ser mulher nesse meio exige coragem, pois a linha entre admiração e fetichização é constantemente cruzada por quem olha sem escutar.

“Já fui chamada de infantil por gostar de animes, de maluca por ser cosplayer. Sempre tinham os comentários depreciativos sobre meus gostos, mas como eu não ligava muito pra esse tipo de opinião, sempre consegui me sobressair bem.”

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Do croqui à performance: o processo criativo de um cosplay autoral.

E quando perguntam se ela sofreu preconceito, não hesita: “Sim, muito. Na época do colégio, da faculdade. Mas isso nunca me impediu de ser quem eu sou. Minha personalidade se moldou de acordo com os meus princípios, e sempre me senti muito bem em relação às minhas escolhas.”

Para Kellynara, a maior beleza do cosplay não está apenas no aplauso, mas na transformação interior que ele proporciona. “O cosplay permitiu eu me reinventar diversas vezes, pois já fiz muitos personagens com personalidades diferentes nesses 14 anos de cosplayer. Sinto que me permitiu ser mais extrovertida, sinto que melhorou minha comunicação com as pessoas em geral.”

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Na passarela ou no evento, o cosplay como forma de expressão pessoal.

Nos eventos, ela é recebida com carinho. Crianças reconhecem os personagens, adultos perguntam como ela fez, querem fotos, dicas. “A recepção geralmente é muito positiva, muitas pessoas elogiam meu trabalho, querem fotografar, me perguntam sobre o processo de construção de todo o cosplay e do personagem. Eu sempre gosto de compartilhar minhas experiências.”

Mas nem tudo foi fácil. “Era motivo de piada antigamente, infelizmente o bullying em relação ao nosso público sempre existiu. Mas hoje, com os tempos mais atuais, foi algo mais normalizado. Existem pessoas que trabalham com isso. Gostaríamos de ser mais valorizados, mas tudo é um processo e sinto que estamos cada vez mais ganhando espaço nesse mundo geek.”

Um espaço que, para ela, vai além de qualquer tendência passageira. “Acredito que tendência chega um momento em que ela passa. Acho que ser nerd ainda é visto pelas pessoas como alguém que só pensa em jogos e não faz outra coisa além disso. Mas na minha concepção, ser parte desse mundo geek/cosplayer é muito mais que isso.”

É também sobre criar pertencimento — mesmo quando o entorno tenta marginalizar. “O preconceito e os estereótipos sempre existiram e vão continuar existindo, seja em qual meio for. Mas hoje sinto que as pessoas se permitem mais a conhecer antes de julgar.”

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Entre a ficção e a realidade, uma homenagem viva aos personagens amados

Ela acredita nos eventos como pontes: “Acho que os eventos são ótimos para que mais pessoas possam conhecer esse meio geek/cosplay, e uma oportunidade pra quem tem vontade de fazer uma imersão nesse meio e entender mais por onde começar.”

E para quem tem medo de dar o primeiro passo? Kellynara é clara: “O primeiro passo é começar. Se sentir deslocado no início é normal, mas sempre existem as pessoas que estão abertas a fazerem novas amizades e a compartilharem boas experiências.”

Em tempos de redes sociais, filtros e julgamentos rasos, a autenticidade de Kellynara reluz entre tecidos e sorrisos sinceros. “O orgulho geek pra mim é ter a oportunidade de celebrar os interesses geeks com muito orgulho e sem vergonha ou estigmas. Ajuda a promover a inclusão e o respeito dentro da comunidade e entre diferentes grupos, reforçando o valor cultural de produções e hobbies que antes eram marginalizados, mas hoje são amplamente populares.

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Orgulho e representatividade: ser quem se é através da fantasia

Entre fantasias e julgamentos, ela segue firme. Não por aprovação, mas por paixão. E cada vez que entra em cena como uma nova personagem, Kellynara não apenas representa: ela resiste.