Conheça a história de José Paraguassú, músico, compositor e poeta de Floriano

O artista florianense já compor mais de 20 músicas e escreveu pelo menos 700 poesias.

O Piauí é o berço de muitos artistas. Hoje, o Rota 343 traz para os leitores a história do músico, compositor e poeta José Paraguassú Martins Cronemberger Reis, o José Paraguassú.

Foto: Arquivo Pessoal

Natural de Floriano (PI), José Paraguassú nasceu em 6 de março de 1955. Quando tinha entre 17 e 18 anos, comprou seu primeiro violão, com o dinheiro que ganhou com a venda de um boi. Porém, seu amor pela música começou ainda na infância, e lhe despertava muita curiosidade.

“Eu me interessei pela música quando eu ainda era criança. Eu ouvia muito Luiz Gonzaga, Luiz Vieira e Nelson Gonçalves. Meu pai tinha vários discos deles e eu ficava ouvindo, eu observava as letras, que sempre contavam uma história, um acontecimento, uma paixão, uma desilusão, e eu ficava maravilhado com aquelas histórias cantadas”.

Por volta de 1976, começou a se apresentar com os grupos de coral das escolas em que estudou. Mais tarde, em 1996, ele faria sua primeira apresentação individual, mas para isso, precisou enfrentar muitas dificuldades.

O sonho de se tornar músico parecia ser distante, visto o preconceito que sua família tinha com quem vivia de música. Ele conta que veio de uma família importante na cidade e muito preconceituosa, que acreditava que pessoas que tocavam violão ou eram músicos, não passavam de pessoas sem interesse em trabalhar. Porém, durante a adolescência, resolveu enfrentar o preconceito e adquirir seu primeiro instrumento, que seria seu companheiro de carreira. Ele comentou sobre o caso.

“Foi uma confusão muito grande, mas como eu tinha comprado o instrumento com o meu dinheiro, eles não puderam fazer muita coisa. Outra dificuldade que passei foi que, na época, era muito difícil encontrar alguém que ensinasse a tocar”.

Segundo ele, o preconceito por parte dos familiares existe até hoje. O artista revela que nunca recebeu apoio ou incentivo de seus parentes, e que por muitas vezes, precisa ouvir que música e poesia são besteira e não rendem dinheiro. Mas, a falta de valorização é colocada em segundo plano quando vê seu trabalho sendo gravado por cantores de outros estados.

A primeira composição de José Paraguassú foi feita no ano de 1976, quando se mudou para Recife (PE). Ele conta que a inspiração surgiu quando percebeu uma diferença entre seu amado interior no sertão e a capital chamada de “Veneza brasileira”: a lua não tinha a mesma beleza quando era vista de uma grande cidade. A saudade de morar na fazenda surgiu e com ela, a música 'Fazenda São José'. A canção foi uma das escolhidas para representar Floriano durante um festival de música do Sesc, em Parnaíba.

Dentre as mais de 20 músicas compostas pelo artista, há uma que é considerada especial, pois foi inspirada por uma história real e que marcou profundamente sua vida. Ele conta que o pai possuía algumas fazendas, uma delas, a Fazenda Paulista, em sociedade com uma tia de José. Um dia, eles decidiram vende-la, e José ficou na propriedade para, juntamente com os vaqueiros, levarem o gado para a Fazenda São José, que pertencia a família.

Durante a atividade, uma cena de muita emoção marcou a vida do compositor. Pela manhã, 20 vaqueiros fizeram um círculo em frente a porteira do curral e começaram o trabalho de boiar.

José então soltou o gado e o reprodutor, que em sua canção é chamado de Novilho Pavilhão, foi o primeiro a sair do espaço confinado. O animal então cheirou o chão, levantou a cabeça, começou a berrar e pegou a cabeceira do gado. Para José, aquela cena foi como se o boi estivesse se despedindo. Desta cena surgiu inspiração para compor a música “Última Vaquejada”.

Assim como o gado, José jurou neste dia que jamais voltaria aquela fazenda. Ele define o ocorrido como “uma parte de mim que se acabou”. Atualmente, o local é usado pelo Governo, que transformou o espaço em um assentamento para famílias sem-terra.

As músicas e poesias escritas pelo compositor, em sua maioria, retratam assuntos ligados ao sertão, aos vaqueiros, aos bois, a terra em geral, pois foi a vivência de infância tida por ele. José conta que como sua família possuía muitas fazendas, sempre passava as férias nesses locais, e então podia observar a vida sofrida do povo do sertão, que é um povo simples, mas muito acolhedor. Esse carinho especial pelo sertão serve de inspiração para suas composições.

“São pessoas de coração muito bom, que dividem o pouco que tem com as pessoas que chegam em suas casas. É uma amizade sincera, e por isso eu gosto muito do sertão. Muita gente acha que o sertão só tem miséria e fome, mas não é não. O sertão é muito rico de histórias, de cultura, de tradições. Quem souber olhar de um jeito diferente, vai ver muita coisa bonita não só no lugar, mas nos sertanejos que vivem lá”, declarou José Paraguassú.

Foto: Arquivo Pessoal

Poesia

Para o artista, a carreira representa a realização de um sonho, uma porta se abrindo. Foi através da música que ele descobriu uma nova paixão e um dom que, até então, desconhecia.

“Depois que eu comecei a compor, eu fui analisar a letra das minhas músicas e descobri que elas também eram poesia. Ai, eu descobri que eu era um poeta também, então comecei a me dedicar a essa forma de arte, pois ela é um pouco mais fácil por não precisar da melodia.”

Depois de mergulhar em um novo mundo, o da poesia, José entendeu que seus textos eram uma forma fácil de comunicação e que, muitas vezes, acabavam contando uma história que não era sua. Muitas vezes, a inspiração toma conta de sua vida como se um espírito lhe mostrasse que história ele deveria contar.

Por diversas vezes os leitores se identificaram com os textos escritos por Paraguassú. Para ele, a palavra “bela” define muito bem o que é a poesia, que sempre é carregada de sentimentos e emoções.

As poesias do escritor podem ser encontradas no site Recanto das Letras . Desde que iniciou na carreira de poeta, José Paraguassú já participou de cinco livros:

- Pequena Antologia Poética de Floriano (1998), de Lurdinha Lopes;
- Homenagem aos vaqueiros e roceiros – o reconhecimento que faltava (2017), de Adrião Neto;
- Flor do Mangue (2018), de Amaro Nascimento;
- Coletânea Piauí em Letras 1;
- Coletânea Piauí em Letras 2.

Foto: Arquivo Pessoal

Na Coletânea Piauí em Letras, ele é um dos organizadores. A obra reúne diversos artistas do estado e ganhará uma terceira edição, que será lançada em julho de 2020.

Experiente, participou da organização de diversos eventos e já se apresentou em muitos deles. Ele foi o idealizador do projeto cultural Florarte, que existiu em Floriano por um ano, entre 2013 e 2014. A iniciativa consistia em levar cultura para os bairros da cidade, através dos artistas locais. Na programação, era realizada uma espécie de ‘intercâmbio cultural’, onde qualquer tipo de artista podia se apresentar e mostrar sua arte para a comunidade.

Infelizmente, por falta de apoio por parte de instituições ligadas a cultura, o projeto foi encerrado.

“O Florarte dependia do patrocínio da Secretaria de Cultura, porque tinha o custo de alugar um som profissional, para que os artistas pudessem usar. A gente não cobrava nada, mas tinha que oferecer estrutura e um som profissional para que os artistas pudessem fazer uma apresentação de qualidade.”

José Paraguassú lamenta que os artistas de Floriano sofram com a falta de incentivo, pois a cultura possui uma grande importância para a sociedade. É através dela que o nome das cidades é divulgado. Outra reclamação é quanto ao espaço dado para as pessoas da região. Segundo ele, as pessoas de fora possuem mais espaço e são mais valorizadas do que artistas florianenses.

Na carreira de José, o apoio que procurava chegou no dia 13 de maio de 2011, quando foi convidado para participar da Academia de Letras e Belas-Artes de Floriano (Albeartes). O convite foi feito pelo presidente da instituição, durante uma apresentação de Paraguassú. Ele revela que o pedido foi uma surpresa, mas que serviu para abrir muitas portas.

Desde que entrou para a Albeartes, o compositor e poeta viu sua carreira mudar. Além de receber valorização e estimulo, muitas portas se abriram e seus trabalhos se tornaram numerosos. Ele conta que no dia em que entrou na Academia, havia escrito apenas quatro composições e cerca de 14 poesias. Atualmente, já compôs mais de 20 músicas e ultrapassou as 700 poesias.

“Lá eu encontrei pessoas que comungam do mesmo pensamento e da mesma arte, que estimulam os artistas e tem me apoiado sempre. Quando se chega numa Academia como essa, a gente convive com pessoas cultas, que dizem que seu trabalho é belo e precisa ser mostrado, então a coisa muda de figura.”

Foto: Arquivo Pessoal

Para tentar contribuir para a cultura, atualmente, o artista está fazendo parcerias com escolas da cidade. Recentemente, um professor de Inglês traduziu algumas poesias de José para a Língua Inglesa e fez um trabalho especial com os alunos. No dia da apresentação, José e sua esposa foram até o colégio para uma conversa com os estudantes. Eles aproveitaram a oportunidade para mostrar a importância da música e da poesia, e estimular os alunos a buscarem a arte e a cultura, visto que atualmente, com a tecnologia e as redes sociais, a leitura tem sido esquecida por jovens e adolescentes.

Além de músico, compositor e poeta, José Paraguassú é Secretário Executivo no Comércio Esporte Clube, cargo que ocupa há 36 anos. Ele é casado com Maria José Siqueira Paraguassú Reis e possui dois filhos, David e Ana Paula.