Violeiro
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Dois amigos, certo dia,
Resolveram viajar,
Botaram viola nas costas
Sem destino pra chegar.
Uma pinga na sacola,
Fumo pra acompanhar.
Cada qual no seu jumento,
Sem dinheiro e sem patrão,
André era mais calado,
Raimundo, mais folgazão;
Um pensava em silêncio,
O outro cantava o refrão.
André, homem acanhado,
Observava com atenção;
Raimundo, sempre sorrindo,
Tinha riso e opinião,
Com jeito meio matreiro,
Mas bom no improvisação.
Onde havia uma venda,
Ou um terreiro enluarado,
Afinavam as violas,
O repente era puxado;
Verso nascia ligeiro,
Feito raio no cerrado.
Logo o povo se juntava
Pra ouvir a cantoria,
História de amor sofrido,
De saudade e valentia,
De injustiça e protesto
Que falava do dia a dia.
Naquele sertão pequeno
Viraram tradição,
Eram festa nas novenas,
Orgulho da região;
Dois heróis da poesia,
Dois menestréis do sertão.
Estendiam o chapéu
No meio da multidão,
E o povo agradecido
Ajudava com tostão;
Ganhavam respeito e fama
Pela força da canção.
As moças se enamoravam,
Queriam prender coração,
Mas violeiro é passarinho,
Não aceita gaiolão;
Nasceu foi pra estrada longa,
Pra viver de inspiração.
Hoje muitos seguem vivos
Nessa mesma tradição,
Levando ao mundo inteiro
A cultura do sertão:
Ser violeiro é ser livre
E cantar com o coração.