Nos Becos da Vida
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Diga aí, doutor,
o que o senhor veio buscar?
Acabou de atravessar a nossa zona de conflito.
Entre a droga e o poder,
o perigo aqui é absoluto.
Vá embora, doutor,
este não é o seu lugar.
Qualquer bobeira pode te matar,
porque aqui a vida perdeu o preço,
e a segurança é um endereço
que ninguém sabe localizar.
Criança vira traficante,
aliciada desde cedo
para matar ou para morrer.
O frio poder de uma arma cala a alma,
rouba o medo
e desarma a vontade de viver.
O que esperar do futuro
para quem cresce no escuro,
sem ter sequer o que comer?
Quem sobrevive mendigando
já não tem nada a perder.
Até o lixo do bacana
vira banquete sagrado
para o estômago condenado
que recolhe os restos
só para não morrer de fome.
E o que tem sido feito?
Ocupações sem respeito,
ditadas pela força do poder.
Maquiagem pra dar resposta
a uma sociedade posta
que não quer ver o sofrimento,
nem a falta de moradia,
de quem mendiga o sustento
e o próprio direito de ser.
Enquanto isso, no asfalto,
quem mora em mansão,
anda em carro de luxo
e tem como única preocupação
o rendimento da aplicação,
nem imagina a ferida.
Não sabe que na favela,
nos guetos, nos becos escuros,
por trás de tantos muros,
não há rosas, tapetes ou avenidas.
A missão ali é sofrida:
é lutar pela própria vida,
sonhando, um dia, vencer.
Será
que tudo isso vai mudar?
Quem me dera estar vivo para ver,
e finalmente acreditar
que humanizar
é a única forma de nos salvar.