Festa de arromba

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Festa de arromba
Festa de arromba (Foto: Gerado por IA)

Festa dearrombs

Coisas que só acontecem comigo – 35

Morando aqui em Aracaju e trabalhando em Alagoinhas-Bahia, eu ia todos os domingos à noite e retornava as sextas-feiras, às 17 horas, no ônibus que vinha de Feira de Santana. Fiz esse percurso por sete anos e logo me tornei conhecido dos agentes e comerciantes do Terminal Rodoviário.

Numa dessas sextas-feiras, cheguei à plataforma de embarque cedo, como de costume, e como estava muito cheia, sentei-me fora do meu local de embarque, coloquei os fones de ouvidos do celular e abri um livro. Por volta das 18 horas, o meu agente tocou-me no ombro perguntou-me se eu havia desistido da vagem.

- Como assim? Perguntei de volta.

- O ônibus chegou, recebeu os passageiros e já partiu há um bom tempo.

Só então me dei conta da hora. Não me restava mais nada a fazer. Comprei outra passagem num ônibus que vinha de Itabuna e que passaria por Alagoinhas por volta das 2 horas da manhã. Retornei para casa e, imediatamente, telefonei para minha família, avisando do meu atraso.

Claro que retornei um pouco chateado com minha desatenção. Eu morava no primeiro andar de uma casa de esquina, na Rua José Luiz dos Santos, com a entrada pela travessa. Desci do táxi e já combinei com o taxista de me pegar na primeira hora da manhã. Lembro-me ter visto um sinal da dona do imóvel, mas nem quis papo, Abri o portão e, rapidamente, subi a escada lateral.

Em algum momento da vida, todos nós temos pressentimentos ou premonições de coisas ruins. O que me deixa mais encucado é que nunca isso se refere a coisas boas. Foi o que senti ao subir os primeiros degraus. O susto não fora desse mundo! Ao chegar ao primeiro piso, na varanda que circundava toda a ala lateral direita do prédio, vi que minha casa estava totalmente aberta e invadida. Eu não poderia ter cometido um erro daqueles. Lembrava-me ter fechado tudo. Ao adentrar a primeira sala havia, vi um aparelho de som ligado na maior altura e duas mulheres dançando animadíssimas, atentas às suas coreografias e completamente alheias ao que se passava em volta. Pelo que pude imaginar, deveria ter uma balada programada para aquela noite, pois as moças ensaiavam a dança com trajes a rigor para uma festa de nudismo! As duas deveriam ter uns trinta anos. Uma era negra, de pele lisa e brilhante, e a outra parecia o filme negativo da primeira: loira e pele branca. Ambas não tinham um só pelo nos corpos. Estavam de costas para a entrada e nem viram minha chegada. Bati palmas e, quando se viraram, a impressão que tive foi de que eu era um Adão com duas Evas.

Em menos de cinco segundos após o susto inicial, as duas partiram pra cima de mim como dois carcarás famintos, perguntando-me com que direito eu me achava de invadir a privacidade de sua casa. Ora, durma com um barulho desses!

A casa me pertencia por locação via contrato e os alugueis estavam quitados desde os três últimos anos que eu morava ali.

- Que palhaçada é essa, minhas senhoras? Eu moro aqui e me cabe o direito de lhes perguntar com quais chaves e permissão vocês invadiram minha residência. Ainda mais que ninguém me convidou pra esse rala bucho! Primeiro, vamos resolver no “par ou ímpar” quem vai trocar de fantasia, pois estou me sentindo, não só incomodado, como ofendido. Ou vocês se vestem ou eu também fico nu...

Neste exato momento, entra correndo a dona do imóvel, que atendia pelo nome de M...

Dona M. era uma senhora viúva, aparentemente 70 anos, mas bem conservada. Mantínhamos uma boa relação de amizade e ela já me tinha prestado alguns pequenos obséquios. De cara, foi logo se desculpando. Disse que as duas moças eram parentes dela, que chegaram para “Alagofeste”, uma espécie de Micareta da cidade. Estava com sua casa cheia de gente e, sabendo do meu retorno somente na noite de domingo, cedera minha casa pra elas, com a promessa de não mexerem em nada e que depois ela se entenderia comigo. Disse-me também que as moças retornariam para Salvador no domingo pela manhã.

Ainda hoje vejo com nitidez microscópica aquela cena que, de tão irreal, de tão maluca, ultrapassa os limites do bizarro: uma senhora viúva, eu, um homem casado, um tanto quanto desorientado, e duas mulheres nuas, do jeito como vieram ao mundo, em tamanho grande. Foi quando as duas correram, se cobriram e retornaram em seguida.

De fato, Dona M. era uma pessoa que não merecia passar por aquele desconforto. Falei pra ela que o resto agora se resolveria, que ela poderia retornar que nós faríamos as pazes.

Na casa, havia uma sala dupla, que seria de jantar e sala de TV. Cozinha grande, dois quartos, sendo que um estava desativado, servindo de depósito, e o quarto onde eu dormia numa cama de casal. Diante disso lhes perguntei:

- Como vocês não têm mais nada a esconder de mim e só temos uma cama, não é nada coerente nem justo que eu vá dormir no relento, estando em minha casa. Também não seria socialmente adequado que isso aconteça com vocês. Por isso, convido-as a dormirem comigo em minha cama, com os trajes que vocês estavam antes, desde que não me toquem...

Claro que falei isso em tom de gozação, mas temendo que elas aceitassem. Elas dormiram na cama e fique acordado até 1 hora quando o taxista veio buscar-me.

Dormi no ônibus durante cinco horas do percurso e ainda agradeci aos céus. Imagine se tudo aquilo tivesse acontecido uma semana antes, quando minha mulher resolveu passar o fim de semana comigo em Alagoinhas! Aí, sim, era que eu descobriria o X da questão, como dizemos por aqui:

“QUERO VER DEUS POR QUEM É, SE PELOS ZOME OU PUR AS MUIÉ”

Será que eu mereço isso?