Eu e meu primeiro peste
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É quase certo que você já ouviu que o “cachorro é o melhor amigo do homem”, e que a amizade entre as duas espécies remonta ao tempo em que o homem não parecia muito com ele mesmo. A amizade entre os cães e os homens é milenar e recentemente com as mulheres também.
Já a minha amizade com o meu primeiro pet foi assim: A cadela de um vizinho tinha parido 8 filhotes, 5 machos e três fêmeas. Eu fui pedir um filhote e quando bati o olho já escolhi um pretinho com sobrancelhas brancas. Mas já tinha dono, aliás todos os machos. Sobraram as fêmeas. Mas meu pai já tinha me dito que fêmea ele não aceitava. Ele não queria aquela pouca vergonha do cio na porta da casa dele. Então eu insisti dizendo que ia cuidar muito bem, mas o velho me disse:
- Depois que levam daqui podem criar do jeito que quiserem, não me importo!
Saí fingindo desilusão, mas não me dei por vencido. Naquela mesma noite bolei um rapto. Passei na frente da casa e vi o velho sentado num banco na calçada, fumando um pau ronca e soltando longas baforadas. Dei a volta e entrei pelos fundos, joguei um pedaço de carne para a cadela longe dos filhotes e peguei meu pretinho. Levei para casa e ao chegar, meu perguntou:
- Foi no compadre Alcides?
- Respondi que sim e corri para o quarto. Agasalhei ele numa caixa de conhaque Cortezano, forrado com folhas secas de bananeira. Na época, eu já lia gibis que meus irmãos traziam da cidade, e uma das coisas que me impressionava em cães eram os nomes: Protetor, Baleia, Búfalo, tinha um amigo que chamava o dele de Rompe Gibão... Eu precisava urgentemente de um cachorro pra chamar de meu. Meu pai tinha tido dois: Almirante e Guarani que estavam em saudosa memória. Coloquei o nome do meu de Mancha Negra em homenagem ao personagem de Walt Disney que entre outras presepadas praticava furtos. Como meu peste era fruto de um furto qualificado, premeditado e em conluio com mais dois facínoras, achei que pôr esse nome, era adequado.
Na noite seguinte, eu estava na calçada com meu pai e metade da família, ainda não tinha luz elétrica por isso eu demorei para perceber a aproximação do velho Alcides, mas quando vi, sumi como um raio. Corri pelo quintal pra casa de outro vizinho, levando comigo o produto de furto.
Voltei pra casa tarde da noite, e não percebi nenhuma reação diferente em meu pai. Fui dormir, depois de agasalhar o nenê na caixa de Cortezano.
Pela manhã, depois do quebra-jejum, minha mãe avisou que o mestre Abdias, meu pai, queria uma audiência comigo. A ficha caiu na hora, pesando uns cem quilos. Descobriram!!! Estou frito!
Eu preferia mil vezes a surra de cipó de minha mãezinha que os sermões solenes de meu pai.
Nossa casa tinha um ponto comercial na frente, onde papai vendia remédios e outras utilidades. E era ali que ele nos dava seus preciosos sermões. Depois de ouvi que tudo que nós tínhamos, incluindo o pirão que o Mancha Negra comia, tinha sido conquistado com trabalho honesto, meu pai falou do meu delito. Disse que homem que mente, rouba, e que no meu caso as duas coisas vinham juntas. Não chorei porque seria outra decepção para o meu pai... “homem de verdade não chora”. Chorei pra dentro, tanto que me deu congestão nasal e dor de cabeça. Ele determinou que eu levasse o Mancha Negra imediatamente de volta ao lar de onde eu o tinha raptado. Da nossa casa para a do velho Alcides tinha uma trilha no meio do mata-pasto e eu dei graças a Deus que o mato estava alto e encobria a minha vergonha. Segui soluçando e afagando meu pestinha. A aventura tinha sido boa enquanto durou. Não tive medo de me apresentar ao seu Alcides trazendo de volta seu filhote de cachorra. Sabia do respeito e da consideração que ele e meu pai tinham um pelo outro.
— Seu Alcides, me desculpe pelo que fiz, vim lhe devolver o filhote...
O velho me convidou para entrar e sentar. Perguntou se eu queria bolo. Respondi que não. Estiquei os braços para ele ver o cachorro. Ele insistiu que eu sentasse e depois me falou.
— Tá desculpado. E eu tenho uma boa notícia pra você; a pessoa que tinha escolhido esse cachorro ficou sabendo da história e disse que você podia ficar com ele.
Como eu já tinha sido pego na mentira, não podia voltar pra casa com aquela figura nos braços dizendo que tinha ganho de presente. Recusei a oferta, formiga antigamente sabia o pau que roía. Mas os velhos de antigamente também eram verdadeiros sábio. Ele percebeu o meu temor e propôs ir comigo até a calçada da minha casa e dizer o que “tínhamos” resolvido.
E assim iniciou-se a nossa amizade, eu e o Mancha Negra!