A queda do Skylab

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A queda do Skylab
A queda do Skylab (Foto: gerado por IA)

Nem me lembro direito quantos anos eu tinha, só sei que era pequeno o bastante pra acreditar em tudo que gente grande dizia. Se bem que nos tempos de minha infância, sobrava pouco tempo pra ouvir a conversa dos adultos. Mas aí correu o boato de que um troço gigante vinha caindo do céu. Diziam que era um satéti , ou coisa parecida — nome difícil de entender e mais difícil ainda de falar.

Esse era um daqueles assunto capaz de capturar nossa atenção: diziam que o menor parafuso do tal disco voador era do tamanho de uma geladeira! Pois foi eu o primeiro a escutar a novidade e corri lá pra casa pra ficar olhando pra uma das poucas geladeiras do lugar; a nossa. Tratei logo de fazer meu dever de cidadão preocupado: espalhei pra todo o povoado que tinha uma chuva de geladeiras vindo em nossa direção.

Naquele tempo, televisão era artigo de luxo. No povoado, só existiam duas: uma na casa de Seu Ananias, que vivia chiando, e outra lá em casa, preto e branca, com a imagem tremida que fazia Cid Moreira parecer um fantasma de terno. Pois foi ele mesmo, o homem do vozeirão, quem anunciou a tal queda do SKYLABE — nome que a gente dizia com a língua embolada e cara de nojo.

Depois disso, o lugarejo virou cenário de filme de terror. As mulheres que iam buscar água no riacho começaram a ver um cabra com fogo na cabeça — um verdadeiro “homem-tocha” do sertão. Na casa de um vaqueiro, o povo se apertava pra ver uns pedaços de metal e um monte de fios que ele jurava ter achado fumegando no meio do mato. Já outro coitado, que saiu pra mijar no escuro, disse que foi atacado por um objeto luminoso! Voltou com as costas cheias de bolha — e eu vi, visse? Vi as bolhas brilhando igual tapioca no fogo!

O alvoroço durou mais de mês, porque notícia ali chegava de pau de arara, uma vez por semana e o motorista servia de pombo-correio e fofoqueiro oficial. Até que, um belo dia, veio a notícia de que o tal satéti cuspidor de parafusos não caiu por aqui, não — foi despencar do outro lado do mundo.

E assim acabou o rebuliço. Ninguém morreu, ninguém foi abduzido, e o máximo que caiu em nossas cabeças foi a ficha de que acreditar demais em conversa de gente grande é coisa de criança besta. Mas até hoje, quando ouço uma história parecida, ainda penso: “Eita, será que é outro SKYLIBE vindo pra se espatifar por essas bandas?”