A visagem
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A visagem
Coisas Que Só Acontecem Comigo
Eu deveria ter uns treze anos de vida, quando certa vez, fui de férias escolares, para a casa do meu tio Antônio, que estava morando na localidade Firmiano, município de Matões-MA., e que ficava nas proximidades de Bonito.
Meu tio morava afastado do centro de Firmiano, cerca de 1 km. Aliás, afastado de tudo e de todos. Dessa casa até chegar na estrada carroçável, íamos por uma vereda de 700 m de distância aproximadamente. Nesse percurso, a vereda passava por dentro do cemitério, cortando-o meio a meio.
O cemitério da região não era grande, pois todo o povoado não tinha duzentas moradias. Assim, aquele Campo Santo, talvez, tivesse cinquenta tumbas rústicas. O que pra mim era irrelevante. Se ainda hoje, eu tenho minhas cismas, naquele tempo, então, eram bem maiores.
Certa vez, por volta das 16 horas, meu tio me mandou ir à quitanda, comprar querosene para as lamparinas e me pediu celeridade e tinha motivos pra isso, pois os candeeiros estavam secos, esturricados.
Numa mão, eu levava o litro de vidro e na outra um galho de mato para espantar as mutucas. Agora, veja: ao passar por uma das covas, dei uma cipoada numa das cruzes dizendo:
- Perere, Perere, morreu porquê?
Uns dez segundos depois, quando eu estava chegando na estrada principal, ouvi, nitidamente, um som como se alguém estivesse pigarreando. Para mim, aquilo não poderia ser normal. Fiquei ressabiado, porém, de imediato, veio-me a possibilidade de alguém está aliviando-se de alguma necessidade física. Procurei, em vão, esquecer o assunto.
Fiz a compra sem a menor pressa e debalde fiquei esperando que alguém fosse na mesma direção que eu. Ninguém apareceu para me salvar, então, resolvi enfrentar o perigo. Eu dava um passo pra frente, querendo dar dois para trás.
Ao passar pelo cemitério, ainda com boa luz do dia, dei outra cipoada na mesma cruz dizendo:
- Pirineu, Pirineu, por morreu?
O que veio em seguida me deixa arrepiado até hoje. Atrás de mim, soou um estridente movimento como se um grande portão de metal rangesse seus gonzos ao se fechar ou abrir. Virei-me e dei de cara com um vulto branco, parado, como se fosse um homem, na junção da vereda com a estrada. Estava em pé, imóvel e desapareceu como nuvem ao vento.
Não tive dúvidas, só poderia ser uma visagem. Meti o pé numa carreira desembestada no rumo de casa. Cheguei esbaforido, mais morto que aquela visagem e só a muito custo consegui explicar alguma coisa.
Todos da família de meu tio eram “crentes". Crentes do tipo " ipsis litteris”: se está na bíblia, vale; se não está, é mentira. Tem na bíblia que alma penada sai da cova para atormentar piauiense frouxo? Não tem, então, é besteira.
Nenhuma pessoa de casa acreditou numa só palavra minha e ainda ouvi uma bela reprimenda:
- Cabra mole! Que piauiense frouxo é esse?! Onde já se viu isso?! Quem já morreu não faz mal à ninguém! Medo quem faz são os vivos. Ainda assim, “bempregado”, para não mexer com quem está quieto.
Melhor seria, ter dado-me uma surra. Tudo eu suportaria, menos ser chamado de medroso, de frouxo.
Com essa, eu pedi para me mandarem de volta para Teresina, só que a treta não acabava aí…
Na semana seguinte, haveria muita agitação no povoado com a visita do padre Delfino, da Paróquia de Timon-Ma., que estava em “Desobrigas”. Entenda como desobrigas, um mutirão religioso que os sacerdotes empreendiam, de tempos em tempos, ministrando sacramentos, pelos lugarejos distantes, fazendo casamentos, batizados, ouvindo confissões e celebrando Missas campais.
Ouvi dizer, que por esse tempo, era comum as almas penadas saírem de suas tumbas em desespero, pedindo clemências.
Padre Delfino Pinheiro de Ulhoas Cintra era uma figura emblemática, carismática, sistemática, pragmática, e muitas vezes problemática e nada diplomática; dizia-se que, por baixo da batina, não faltava uma pistola parabellum Luger, de fabricação alemã, 7,65 calibre 9mm. Acumulava as funções de prefeito e pároco, de sorte que, se o Papa João XXIII chegasse ali, não seria mais paparicado que o padre. Daí que, sua presença, por si só, já faria qualquer defunto revirar na cova.
Não me me saía da cabeça, aquela história de alma penada pedindo arrego.
Meu tio era protestante, mas não poderia me impedir de ir à Desobriga. Assim, fui esperar a chegada do padre. O povoado ficou minúsculo para tanta gente. Cada pessoa colocara sua melhor roupa, sua melhor água de cheiro, a melhor pragata. As moças e senhoras eram as mais empertigadas e eufóricas!
BO padre chegou por volta das 14 horas e a aglomeração tomou conta, com foguetórios, vivas e coisas do gênero.
O tempo voava e eu teria que retornar antes do anoitecer e passar pelo cemitério ainda com o sol de fora. Pois sim! Quando me dei conta, já estava na casa do “sem jeito".
Deveria ser umas 6 horas da tarde, visibilidade boa, mas em região de mata, rapidamente, escurece, então, me pus no caminho de casa.
BEu levava um pequeno galho fino da tamarineiro, dando cipoada no vento para me divertir e a poucos metros da entrada da vereda, eis que saí, sabe-se lá de onde, um homem curvado, caminhando lentamente. Usavam roupa branca e pelo que deduzi, ironicamente, a vida dele estava pior que a minha, pois aquela vestimenta não estava apropriada para dia de festa. Caminhava mancando e a perna esquerda da calça estava arregaçada até a canela. As mangas da camisa, igualmente, arregaçadas até os cotovelos.
Devo dizer que vivíamos tempos onde as pessoas confiavam umas nas outras, especialmente, nos lugares pequenos, onde todos se conheciam. Apressei os passos para ter a sua companhia.
Ao chegarmos ao cemitério, ele estava a minha frente cinco passos. Entrou para a esquerda, olhou para mim e soltou um gemido de dor, o mesmo som dos rangidos de portões se fechando, mostrando-me os dentes todos estragados. Em seguida, desintegrou-se no ar…
BMais uma vez, cheguei em casa mais morto que vivo, extenuado e tive febre a noite toda.
BbbPara os incrédulos, ficaria sabendo que com aquelas características: homem acima de 1,80m, com barba, curvado, mancando a perna esquerda, havia morrido há dois anos, um certo Zeca do bode, que vivera amigado com uma filha.
Na semana seguinte, no primeiro caminhão que veio de Matões para Timon, meu tio me levou para Teresina. Nunca mais retornei àquelas cercanias.
Eu vi e conto.