Bebês reborns: Psicólogos comentam assunto que tem causado polêmica

Fenômeno das redes sociais, tema tem despertado curiosidade, admiração e críticas.

Eles se parecem com recém-nascidos, têm cheirinho de bebê, pele macia, cílios implantados e até veias pintadas com precisão. Os bebês reborns, bonecos hiper-realistas que simulam bebês humanos, se tornaram um fenômeno que vai além do colecionismo. Nas redes sociais, vídeos de adultos simulando partos, levando os bonecos ao pediatra ou exibindo “rotinas de cuidados” despertam curiosidade, admiração — e também críticas.

Foto: ReproduçãoBebê reborn

Mas o que leva alguém a tratar um boneco como se fosse um filho de verdade? O Rota 343 foi atrás da resposta para essa pergunta. Conversamos com os psicólogos Pedro Lucas da Fonsêca Augusto, de 25 anos, e com Karla Dayana Timóteo Coelho, de 45 anos.

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Segundo Pedro, o fenômeno precisa ser analisado com cautela e senso crítico, pois não se trata apenas de comportamento individual, mas de uma construção coletiva impulsionada pela cultura digital.

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“Antes de tudo precisamos entender que isso é um jogo midiático. A história do parto, o levar em consultas, muito isso pode ser sim um jogo de mídia, inclusive de quem vende as bonecas. Quantas mulheres adultas você conhece que tem um bebê reborn e que acredita que ele seja um filho? É um fenômeno construído pela a mídia. Pode existir sim mulheres que se interessam e que queiram brincar e colecionar bonecas, mas o que faz isso chamar tanta atenção?”

Apesar da aparência estranha que essa prática pode causar em algumas pessoas, o especialista lembra que o comportamento de brincar ou colecionar objetos não é exclusivo de mulheres — embora seja mais julgado quando parte delas.

“Homens colecionam bonecos de super-heróis, carrinhos... passam horas e horas jogando vídeo game nos fins de semana e isso não é problematizado. Por que é tão espetacularizado quando uma mulher supostamente brinca? Isso também é uma construção midiática”, explica Pedro.

Do ponto de vista psicológico, o vínculo com um bebê reborn pode ter diferentes significados. Em alguns contextos, ele pode ser uma forma saudável de expressão, mas segundo a psicóloga Karla Dayana, também pode ser um problema.

“Pode ser considerado saudável quando não interfere negativamente no funcionamento emocional, social ou cotidiano da pessoa, ou seja, não substitui completamente os vínculos reais com outras pessoas, não prejudica a autonomia, como cuidar da própria saúde, realizar tarefas básicas ou manter uma rotina equilibrada e não causa isolamento social.”

“Por outro lado, a prática se torna preocupante quando substitui os relacionamentos reais, gera isolamento, prejudica a autonomia ou funciona como uma fuga constante da dor emocional, sem espaço para a elaboração consciente. Nesses casos, acende-se um sinal de alerta, e o mais indicado é buscar o apoio de um profissional da saúde mental para uma escuta qualificada e acolhedora.”

O psicólogo Pedro alerta para alguns sinais que podem indicar que o apego pelo bebê reborn está se tornando um problema. Segundo ele, obsessões exacerbadas, comportamentos agressivos ou quando o vínculo é usado como forma de fugir da realidade, são indícios de que a situação merece ser vista com atenção.

“É importante destacar que pode haver exceções. Uma pessoa que tenha o bebe reborn e que o considere de fato como um filho seja em uma brincadeira ou seja em uma situação mais delirante, mas essas situações são exceções.”

Foto: Arquivo PessoalPedro Lucas da Fonsêca Augusto
Psicólogo Pedro Lucas da Fonsêca Augusto alerta para forma como a mídia usa os bebês reborns.

Apesar dos alertas, o profissional destaca que os bonecos realistas possuem utilidade positiva na Psicologia, sendo usados para fins terapêuticos.

“Um outro aspecto uma pessoa que de fato tenha um transtorno mental, uma deficiência intelectual, um quadro demencial ou alguma outra situação de uma forma orientada poderia se beneficiar do bebe reborn para lidar temporariamente com aquela situação.”

“Eles são aplicáveis em atendimentos lúdicos, terapias infantis, foco em traumas, treino de habilidades parentais e sociais, entre outros”, complementa Pedro.

O papel das redes sociais e o olhar da sociedade

A cultura digital tem um papel central na popularização e espetacularização desse comportamento. A exposição de cenas cotidianas com os bebês reborns, muitas vezes dramatizadas, contribui para reforçar estereótipos e preconceitos — mas também amplia o alcance do tema.

“A sociedade age de acordo com o que faz sentido para ela de forma individual. O olhar crítico é um fenômeno social, mas é importante ter empatia para buscar compreender. E, acima de tudo, olhar para o nosso entorno, e não apenas para o celular”, comenta Pedro.

Foto: Arquivo pessoalKarla Dayana Timóteo
Psicóloga Karla Dayana fala sobre os bebês reborns.

Para Karla Dayana, as redes sociais são grandes aliadas para que a “cultura dos bebês reborns” seja ampliada. Ela ainda destaca o perfil de pessoas que, normalmente, são mais influenciadas pelo fenômeno.

“As redes sociais e o mercado digital contribuíram para transformar os bebês reborn em produtos altamente divulgados, comercializados e consumidos. Muitas vezes, esse consumo é impulsionado por campanhas emocionais, vídeos que romantizam o cuidado com os bonecos e uma estética que reforça a ideia de “bebê real”.Nesse cenário, pessoas em situação de fragilidade emocional como luto, solidão ou desejo frustrado de maternidade podem ser influenciadas a adquirir um bebê reborn como uma forma imediata de preencher um vazio afetivo, lembrando que não há evidências científicas que comprovem que o uso de bebês reborn favoreça o enfrentamento do luto.”

“O risco aqui está na mercantilização da dor: quando o sofrimento vira alvo de estratégias de marketing, há o perigo de se buscar soluções simbólicas apenas no consumo, em vez de elaborar os sentimentos de forma consciente e cuidadosa”, alerta a psicóloga.

E quem vive isso?

Para quem convive com alguém que trata um bebê reborn como um ser vivo, Pedro destaca que o primeiro passo é o respeito.

“Todos precisam de acolhimento. O processo começa quando você para e ouve o outro sem julgamentos. Se houver necessidade, a busca por um psicólogo é recomendável — não apenas por causa do boneco, mas porque todos podemos nos beneficiar da terapia.”

O caminho, segundo o profissional, está na escuta, no apoio e no autoconhecimento.

“O processo terapêutico pode ajudar a ressignificar vínculos e lidar com dores emocionais. O importante é acolher, com empatia”, finaliza Pedro.

Foto: ReproduçãoBebê reborn

Karla Dayana complementa alertando que cada caso é individual e é preciso ser analisado de forma particular, pois o simples fato de adquirir um bebê reborn não significa que exista um transtorno mental.

“Para que esse comportamento seja considerado um transtorno mental, é necessário avaliar se o comportamento da pessoa está associado a sofrimento psíquico significativo, prejuízo na funcionalidade ou isolamento social. No entanto, essa análise deve levar em conta diversos fatores, como o contexto de vida, a motivação emocional envolvida e a presença (ou não) de outros sinais de sofrimento psicológico.”

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