Após fim de operação no Rio de Janeiro, polícia contabiliza mais de 120 mortos

A madrugada foi marcada pela chegada de pelo menos 60 corpos à Praça São Lucas.
Pelo menos 44 corpos são levados por moradores para praça na Penha; há mais em área de mata.
Pelo menos 44 corpos são levados por moradores para praça na Penha; há mais em área de mata. (Foto: Betinho Casas Novas/g1)

Moradores do Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, levaram ao menos 64 corpos até a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas — uma das principais vias da região — durante a madrugada desta quarta-feira (29). A mobilização ocorreu após a operação policial mais letal já registrada no estado.

Desde a ação, iniciada na terça-feira (28), o número de mortos chegou a 128. O balanço oficial divulgado pelo governo informava que, entre os 64 mortos confirmados até então, 60 eram suspeitos e quatro pertenciam às forças de segurança — dois policiais civis e dois militares. De acordo com o secretário da PM, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, os corpos levados pelos moradores à praça não estavam incluídos nesse levantamento e passarão por perícia para determinar se há relação com a operação.

Reconhecimento na praça

Segundo apuração do g1, os corpos — todos de homens — foram encontrados em uma área de mata conhecida como Vacaria, na Serra da Misericórdia, ponto central dos confrontos entre policiais e traficantes.

O ativista Raull Santiago, que participou da remoção dos corpos, descreveu a cena como inédita em sua vivência na comunidade:

“Em 36 anos de favela, passando por várias operações e chacinas, eu nunca vi nada parecido. É algo novo, brutal e violento num nível desconhecido”, afirmou.

Os moradores decidiram levar os corpos até a praça para facilitar o reconhecimento pelas famílias. Muitos foram deixados sem camisa para evidenciar tatuagens, cicatrizes e outras marcas corporais que ajudassem na identificação.

Relatos apontam que a maioria apresentava ferimentos de bala, e alguns estavam com o rosto desfigurado.

A Polícia Civil informou que o reconhecimento oficial será realizado no prédio do Detran, ao lado do Instituto Médico-Legal (IML) no Centro do Rio, a partir das 8h desta quarta. Durante esse período, o acesso ao IML ficará restrito a equipes da Polícia Civil e do Ministério Público, responsáveis pelos exames. As demais necropsias — não relacionadas à operação — serão realizadas no IML de Niterói.

Corpos levados ao hospital

Mais cedo, seis corpos foram transportados por moradores em uma Kombi até o Hospital Estadual Getúlio Vargas. O veículo chegou em alta velocidade e deixou o local logo em seguida.

Cidade recupera normalidade após bloqueios

Depois de mais de 12 horas de bloqueios atribuídos ao Comando Vermelho, o Rio de Janeiro amanheceu sem interrupções em suas vias nesta quarta-feira (29). Conforme o Centro de Operações e Resiliência (COR), a Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá foi a última a ser liberada, no sentido Jacarepaguá, às 2h45.

Antes das 6h, o prefeito Eduardo Paes anunciou que a cidade voltou ao Estágio 1, indicando normalidade após 16 horas no Estágio 2, caracterizado por ocorrências de alto impacto e potencial agravamento.

Nas redes sociais, Paes escreveu: “Estamos voltando a Cidade pro Estágio 1. Modais operando normalmente, cidade fluindo com normalidade. Permanecemos atentos. Informem-se por canais oficiais!”

Criminosos incendiaram e utilizaram ônibus e outros veículos como barricadas em diversas vias. 71 coletivos foram tomados e 204 linhas ficaram paralisadas, afetando corredores como a Avenida Brasil e as linhas Amarela e Vermelha, além das rodovias BR-101 e BR-040, que chegaram a ser bloqueadas.

Durante a tarde de terça-feira, as empresas de transporte suspenderam a circulação de ônibus.