Memória e criatividade: Um chamado para resgatar o humano em nós
Entre lembranças, sensações e a urgência de preservar a capacidade de imaginar

Nos últimos dias, participei de uma palestra sobre memória que me fez refletir sobre sua importância para a vida, para a aprendizagem e, sobretudo, para a criatividade. A memória é o nosso “arquivo vivo”: aquilo que estudamos, vivemos e sentimos é armazenado e, mais tarde, resgatado no subconsciente quando precisamos. Porém, só podemos buscar o que um dia guardamos.
A memória não é apenas informação. Ela é emoção, cheiro, sensação. É a música que nos transporta ao passado, o aroma que nos lembra a infância, o lugar que nos desperta sentimentos guardados. E é justamente nesse ponto que percebi a ligação profunda entre memória e criatividade.
A criatividade nasce daquilo que conhecemos e experimentamos. No entanto, a atual dependência massiva das tecnologias, especialmente entre crianças e jovens, está comprometendo esse processo. O imediatismo das telas substitui a imaginação. Antes, bastava olhar para o céu e enxergar em nuvens animais, formas ou monstros criados pela mente. Hoje, tudo já vem pronto em 3D, detalhado e “mastigado”. A experiência da criação, da invenção pelo imaginário, está sendo perdida.
Isso nos leva a um alerta: ao delegarmos tudo às máquinas, corremos o risco de atrofiar uma das nossas maiores capacidades humanas — a de imaginar. Pesquisas já apontam que a geração atual apresenta níveis intelectuais mais baixos em comparação com gerações anteriores, justamente pela perda da prática de registrar, memorizar e elaborar. Não é à toa que estudiosos defendem um retorno às práticas tradicionais: cadernos, lápis, livros e atividades manuais. Esses recursos simples estimulam tanto a memória quanto a criatividade, construindo bases sólidas para o pensamento crítico.
Estamos diante de uma encruzilhada. Podemos continuar entregando a criatividade às máquinas ou podemos resgatar a beleza de criar a partir do que guardamos em nossa memória. O futuro dependerá da forma como ensinamos nossas crianças e jovens a valorizar suas próprias experiências, lembranças e imaginação. Afinal, só criamos a partir do que conhecemos — e só conhecemos aquilo que um dia deixamos entrar na memória.
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