Bateu as botas

Pela posição que o múnus sacerdotal lhes confere, muitos Bispos acabam, à sua revelia, passando a impressão de uma austeridade descabida. Muitos, ao contrário, pelo menos, os que conheço, são pessoas alegres, espirituosas e solícitas.
Dom Fernando Iório Rodrigues, hoje Bispo Emérito de Palmeira dos Índios – AL, é um desses excelentes contadores de “causos“, inclusive tem até livros editados sobre isso. Dom Itamar Vian e Frei Colombo são outros narradores de estórias. Padre Henrique Galimbert também escreveu um livro chamado “Humor especial, ria se quiser”, publicado pela “Recado Editora”, onde conta piadas de padres e freiras.
Então, nem sempre o que se imagina é a verdade que se pensa.
Não poderei dizer o nome da cidade nem o nome do Bispo Emérito que celebrava a Missa, porque isso já foi motivo de encrencas.
Entretanto, por dever de ofício, tenho que dizer aos leigos no assunto que todo Bispo católico, ao completar 75 anos de vida, vê-se obrigado, pelo Código de Direito Canônico, a pedir aposentadoria. Assim, torna-se Bispo Emérito e outro bispo assume o comando da Diocese. Mas mesmo aposentado, não deixa de ser Bispo nem de celebrar normalmente, quando solicitado.
Tenho, por chatice, o hábito de nunca chegar atrasado, seja lá qual for o evento, mesmo os sem importância alguma. Agora imaginem os religiosos!
Mas tudo tem por certo o dia e, naquele domingo, eu cheguei à igreja com a missa já iniciada há uns dois minutos. No altar, o Bispo Emérito, muito querido pela cidade inteira. Ali fora sua primeira e única Diocese.
Durante a Missa, há a Oração Eucarística, momento em que a Igreja reza pelos filhos que já partiram para a eternidade. O Missal Romano diz textualmente assim:
“Lembrai-vos, também, ó Pai, dos vossos filhos e filhas que chamastes deste mundo à vossa presença. Concedei-lhes que, tendo participado da morte do Cristo pelo Batismo, participem igualmente da sua Ressurreição.”
Existem outras fórmulas, com palavras diferentes, mas sempre com o mesmo sentido. Sinceramente, eu não sei onde o senhor Bispo estava com a cabeça, ao dizer:
“Lembrai-vos, também, ó Pai, de vossos filhos e filhas que esticaram as canelas e bateram as botas, indo para a cidade dos pés juntos...”
Não prestou! Tinha gente que ria sem controle, outros fecharam a cara, emburrados, especialmente porque aquela era também uma Missa de Sétimo Dia...
Eu não sei como me contive e o Bispo ficou sem entender o porquê de tanta algazarra num momento tão solene.
Foi quando um dos acólitos* aproximou-se do Bispo e cochichou-lhe ao ouvido. Ele, então, polidamente, se desculpou, dizendo, inclusive, que ele mesmo, até pela força da idade, não tinha mais parentes vivos e que dissera aquilo por força do hábito, em conversas com a comunidade diocesana, mas não tivera a intenção de ofender ninguém.
Só que o estrago já havia sido feito.
Ao final da celebração, fui conversar com ele e disse que deixaria um documento, escrito de próprio punho, autorizando-o a rezar daquela forma na minha Missa de Sétimo Dia. Coitado, ele riu pra se acabar!...
Eu vi e conto.
Obs.: Acólito é uma pessoa que auxilia o sacerdote na Missa, que pode ser um coroinha ou alguém da própria comunidade.
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