O monstro voador

None
O monstro voador
O monstro voador (Foto: criado por IA)

Nenhuma criança, pois mais pobre que seja a sua vida e o seu lugarejo, se sentirá infeliz se nele existir um arroio, um açude ou um rio. Talvez isso explique a razão de mais da metade de nosso corpo ser líquido. A atração do homem pela água é natural, embora isso não esteja isento de perigos e não poucas surpresas.

Na margem esquerda do Velho Chico, cerca de 14 km abaixo da sede do município, Traipu-AL. e acima 20 km de Propriá-SE. existia um pequeno povoado conhecido por Munguengue, hoje, Bom Jardim. Pelos anos de mil novecentos e lá vai fumaça, quando o rio era o mais rápido e viável meio de escoadouro e a lancha o mais rápido meio de transporte e, como ainda hoje, Traipu em Alagoas e Propriá, Sergipe, as cidades mais prósperas e próximas.

Eu conheci o Munguengue na década de noventa, pois tenho meios parentes por lá. Embora fosse um lugar agradável, era, também, sem atrativos. Desses lugares onde nada acontece e os dias são todos parecidos. Isso, no entanto, não deprecia o lugar, pois é fato comum em muitas localidades brasileiras.

Dito isso, é dispensável dizer que se daquela localidade ninguém conhecia um avião de perto, inimaginável seria conhecê-lo por dentro. Para ser mais preciso, o máximo que se conhecia, era o contrail ou linha de condensação, deixada no céu, quando alguma aeronave cruzava os céus daquela região. Avião só existia nas poucas páginas de revistas ou nos noticiários da Segunda Guerra recentemente acabada.

Chegou janeiro e o verão já castigava o sertão nordestino. O leito do Rio São Francisco apresentava muitas ilhas de bancos de areia alvíssimas. Em muitos lugares a água havia recuado das margens formando “coroas” para a alegria da meninada, tornando os dias mais alegres e de alguma forma, isso servia de lenitivo para as agruras de vida.

Um dia, o sol começava a desaparecer no horizonte após as serras, quando o terror chegou sem prévio aviso, colocando toda a população do povoado em pânico absoluto. De repente, vindo das bandas de onde as águas descem, apareceu no céu um monstro voador, uma espécie de cruzamento de libélula com cavalo do cão, com um ventilador pequeno no rabo e outro ventilador grande sobre a cabeça, fazendo uma zuada da “misera e o zói” encarnados piscando incessantemente! As mulheres que lavavam as últimas peças de roupas ou os trens de cozinha, as crianças que tomavam banho com algazarras e poucos homens que pescavam, diante do assombroso inusitado, bateram em retirada tão rápidos como o diabo fugindo de água benta, deixando para trás os seus pertences, produzindo alaridos descontrolados. Mais horripilante foi descobrir que o monstro já havia engolido, pelo menos, três pessoas.

É fato, que um dos pescadores que estavam com anzol no barranco, no desespero da corrida por dentro do mato, perderá toda a roupa, chegando em casa como viera ao mundo, causando um espetáculo constrangedor para si e hilariante para os menos discretos. Afinal, não é comum ver-se um homem correndo nu, pelas ruas, desajeitado, tentando tapar “as partes” com as mãos. Ele levava, somente, um cumbuco (depósito de iscas) preso à cintura por um forte barbante.

Na descontrolada debandada, muitos se estrupiaram nas passagem de cerca, nos garranchos, nos óbices do caminho. Outros gritavam dizendo apavorados:

- É fim de mundo! A Besta fera chegou! A Besta fera chegou…!

No Brasil, é do conhecimento de todos, que os fatos são menos importantes que as versões. As versões, por sua vez, nem sempre reportam a verdade sintática, daí que, tem gente que jura ter visto algumas senhoras insuspeitas, aos prantos, pedir perdão aos maridos por ter “errado uma vez”! Não se deve levar isso a sério.

Sobre o rio, o monstro continuava com seu ar destruidor, ora parava no ar como beija-flor, ora girava sobre o próprio eixo. Por vezes, se aproximando tão perto da coroa, a levantar nuvens de areia no ar.

Depois de alguns minutos, sem plateia e sem comer ninguém, o bicho pousou suavemente numa das ilhas próximas, desceram dois tripulantes fazendo sinais com as mãos, tentando desfazer o pandemônio criado. Um dos pescadores que ficará estático em sua canoa, ainda tremelicando de medo, aproximou-se e ouviu as desculpas dos visitantes, depois retornaram pelo mesmo lugar por onde vieram.

As pessoas adentraram em suas casas, batendo portas e janelas e foi uma noite de extrema escuridão, onde ninguém se atrevera a acender as placas (lampiões de cúpulas de vidro) e lamparinas. Nas noites seguintes, ninguém se atrevera a conversar com os vizinhos, sentados às portas de casa, costume tão comezinho.

O povo ribeirinho nordestino, tão afeito a estórias mirabolantes de assombrações, jamais poderia imaginar um portento destes à luz do dia. Se não era a Besta fera, era o diabo com o tempo nas costas.

Passado algum tempo, soube-se tratar-se de um helicóptero Bell 47, pertencente à empresa que construíra a barragem de Paulo Afonso, que fazia um voo de reconhecimento da bacia do Rio São Francisco. Só que o estrago já estava feito e nada iria mudar a realidade vista.

“Para felicidade geral da nação” não era a Besta do Apocalipse.

Eu ouvi do povo de lá e conto.