O asfalto
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Eu estava trabalhando na construção de um conjunto de casas populares do tipo “Minha casa, minha vida”, na Zona Sul de Aracaju.
O exercício da Topografia nunca foi uma atividade confortável, ao contrário. Como se não bastasse o nível de estresse provocado pela urgência, pois “tudo era para ontem”, some-se a isso os constantes perigos de acidentes. Mas isso não é tudo. Se um dia, algum amigo me disse que foi atacado por um urso polar ou ou um hipopótamo, eu acreditarei sem questionamento, já que, em nossa vida, o inusitado é recorrente.
Hoje, com a desmedida e crescente violência urbana, os perigos aumentaram drasticamente. Aumentaram tanto que para minimizar, eu coloquei como título desse artigo a palavra Asfalto, quando na realidade é O assalto.
Um dia, terminado o expediente, eu estava em frente da guarita de entrada principal, aguardando o transporte que levaria minha equipe para casa.
Aquela era uma região perigosa, dominada pelos traficantes de drogas. Eu fui um dos primeiros a chegar ali, trabalhando desde o levantamento topográfico primitivo para o projeto arquitetônico do conjunto.
Na parte superior da guarita, estava o vigilante e na calçada, próximo ao meio fio, uns vinte trabalhadores em final de expediente.
Nisso, um elemento que passava pela rua com um comparsas, sabe-se lá por quais motivos, cismou que eu o estava “encarando” e veio me questionar isso. Tomado de surpresa com aquelas intempestiva atitude, eu só tive tempo de dizer que não sabia do que ele estava falando. Nisso, o cara sacou de um revólver grosso calibre e acertou-me uma coronhada na caixa dos peitos e tomou um celular de um dos rapazes que trabalhavam comigo. Eu fiquei sem ação e sem poder de reação. Humilhado na minha já fragilidade insignificância, torcendo para que as agressões não aumentassem. Por sorte, os meliantes se deram por satisfeitos e se foram, lentamente, de quando em quando, olhando para trás.
Todos os outros trabalhadores se evadiram do local com a rapidez de um raio. Não os condeno por isso. Trabalhadores pacíficos, desarmados, igualmente, impotentes diante daquele absurdo. Depois de alguns instantes, retornaram e cada um tomou o rumo de suas casas e a vida seguiu o seu curso.
Aquele era o clássico tipo de ocorrência que de nada adiantaria registrar em BO na Delegacia de Polícia. Mas nem tudo fica sem resposta.
Eu retornei à obra três dias depois e o mesmo vigilante me deu uma notícia surpreendente: ele falou que, naquela mesma tarde, cerca de cinco minutos após a minha saída, o chefe do tráfico passou por lá e ele, vigilância, se queixou da ocorrência, dizendo que o pessoal dele estava barbarizando na porta da empresa. Pois bem, sabendo das características dos agressores, o “chefão” saiu na mesma direção dos seus comandos e logo depois, seis tiros de pistolas foram ouvidos e os dois cadáveres estavam a disposição do IML.
As dores da coronhada doeram ainda por algum tempo, mas as dores da humilhação permanecem, muito embora, nem de longe isso tenha sido o pior.
Comentando esses lamentável fato, mesmo que outros trabalhadores sejam assaltados, diariamente, nas porta de seus empregos, tive que ouvir de algumas pessoas infelizes e mal amadas a seguinte conclusão:
- São as vítimas da sociedade, nós não sabemos como foi a infância deles.
Pedi licença e saí para não mandar todos irem a puta que lhes pariu. Com perdão das putas que não merecem filhos como esse pensamento.
Eu sou oriundo de uma família paupérrima, no tempo em que transporte coletivo não existia para todos os bairros. O governador não dava farda, material escolar, transporte e a merenda era horrível. Em linha reta, da minha casa até a escola eram 2,5 km e com minhas pernas pequeninas, essa distância poderia ser dobrada, sem contar com o refrigério daquela lua de Teresina a 39° C. Venci na marra, atropelando os obstáculos e muitas vezes cheguei ensopado de água de chuva, à noite. Não tive vida fácil, sou mais um David que, desta vez, sem baladeira, venceu os Golias da existência e depois disso tudo, escuto um imbecil dizer que eu sou o culpado pelo assalto e agressões físicas que senti.
Vá entender esses psicopatas !