Maria Mole

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Maria Mole
Maria Mole (Foto: Gerado por IA)

Maria Mole

Só me lembro que era no Século XX, possivelmente entre 1963/67. Morávamos no Bairro Vermelha, em Teresina. Nosso parque de diversões diário estava situado em um terreno em forma de U, entre as Ruas David Caldas, João Virgílio e Sete de Setembro. Ali estava encravado um campo de futebol, com funcionamento quase que ininterrupto das 7 às 18 horas.

Comparando-se com hoje, eram tempos difíceis. As melhores bolas de futebol eram as de marca “Drible” e de couro cru. Bola pesada que, no inverno, piorava ainda mais, porque encharcava com facilidade. Comprar uma bola nova era um suplício. Fazia-se “vaquinha” por meses a fio.

Mas nossa sorte era bem melhor que as dos meninos de outros bairros, porque três de nossos coleguinhas eram filhos de “seu” Renato Barreto de Moraes, árbitro da Federação Piauiense de Futebol. Assim, quando uma bola já estava surrada, ele trazia outra nova para os filhos. No Campeonato Estadual, uma bola só fazia um jogo.

Que Deus tenha “seu” Renato (que além de árbitro, era também fiscal do Juizado de menores e palhaço de circo com o nome de Taioba) num lugar bem bacana nos céus! Devemos-lhe esses favores.

Maria Mole era um homem negro, de 2,10 metros de altura ou um pouco mais, esguio, 80 kg. ou um pouco menos, deveria ter uns trinta anos de vida, com um caminhado cheio de bossa, gingoso. Bombeiro hidráulico por profissão, muitíssimo conhecido no bairro não só pelas características físicas, como também pela amabilidade. Era um lorde. Não se sabia o seu nome de batismo, mas isso era o que menos importava. Era um dos peladeiros de carteirinha.

A pelada nossa de cada dia nos impunha outra obrigação: o campo era um terreno dos Vicentinos, estava resguardado por uma cerca de arame farpado. Ora, uma bola furar naquelas cercas não era de fato uma coisa inesperada, por isso, tínhamos uma oficina ambulante, equipada com barbantes, cera de abelha, sovelas, sebo de carneiro, remendo rápido, agulha grossa. Todos nós sabíamos remendar e costurar bola. Em trinta minutos o jogo reiniciaria, caso acontecesse esse tipo acidentes.

Numa fatídica tarde de agosto, estávamos medindo forças dentro de campo, quando aconteceu uma desgraça cheia de graça. Maria Mole era zagueiro de respeito pelo porte. Não era do tipo “sheriff”, que espanava os adversários. Era clássico, jogava sem violência, e seu porte já lhe favorecia. Em dado momento, um beque adversário para aliviar sua área, deu um bico violento na bola e essa ganhou altura, velocidade atravessando todo o campo. Nesse trajeto, a bola furou e foi na direção donde nosso zagueiro Maria Mole, que se encontrava sozinho numa zona morta do campo. A bola desceu e, depois de bater na cabeça do nosso zagueiro, caiu murcha ao chão. Maria Mole sem entender nada, exclamou:

- Furou!

Entre jogadores e torcida deveria tem em campo umas duzentas pessoas, por isso, o riso foi estrondoso. Tinha gente que se contorcia de tanto gargalhar e não era para menos. Gente que perguntava:

- Maria Mole, por que diacho tu não chutaste essa bola? Só mesmo tu para não saber que ela iria furar!

Por esse tempo, chamar um homem de corno era chamar para a briga. Ninguém falou isso de forma direta, entremente, era visível o rumo que a gozação tomava, porque ninguém conseguia estancar o riso.

Até então, nem Júlio Verne, nos seus momentos de maiores inspirações, previra o telefone sem fio, celular, internet; ainda assim, as noticias corriam com a velocidade do vento.

Atrás de nosso gol, um garoto, conhecido por Gago, que estava assistindo à pelada sentado no quadro de sua bicicleta viu toda a cena. Mais que depressa, ele montou na “magrela” e pedalou rumo à casa de Maria Mole. Ao chegar, encontrou a mulher de Maria Mole conversando à porta da rua com três amigas, e esbaforido, não perdeu tempo...

- A-a-a-a-aconteceu uma-uma-uma com teu ma-ma-marido...

- Fala logo, menino dos diabos, o que aconteceu com meu marido?

- Ele fu-fu-furou a bo-bo-bola com o chi-chifre lá no campo!

Pronto, salgou o angu! As três amigas prorromperam numa infindável gargalhada, que perdurou até a semana passada!

São Coisas de Minha Terra que eu vi e conto.