Expulsos do velório
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Expulsos do velório
Eu sou um sobrevivente. Já escapei de três assaltos à mão armada (desculpe a redundância), uma emboscada, três afogamentos, um quase desastre automobilístico, uma pandemia, botes de serpentes, uma difteria aos três anos de vida, incêndio aéreo, já vi, com esses olhos que a Terra ainda vai demorar a comer, o meu próprio jazigo, em Balsas-MA. sem falar que estou sobrevivendo a um segundo casamento com mulheres! (desculpe, mas sou desse tempo) e ainda que vim ao mundo em parto fórceps. Duvido que você saiba o que é isso e nem vá procurar no Google, ele também não sabe! Ainda preciso dizer que, pelo menos uma vez, fiquei perdido e desorientado na selva.
Resumindo: a morte está sempre no meu rastro, mas, graças a Deus, ela tem perdido o faro.
A Lena, ó meu Zeus! Terei que falar nessa pessoa de novo? Lena é uma criatura divina que faz feliz a qualquer vivente que cruze com ela. No entanto, quando se trata de sonhos, Morfeu, o filho de Hipnos, não foi muito generoso com ela…
Sempre que ela vai me contar um sonho, já me persigno, pois são tragédias com enormes probabilidades de acontecerem. Não sei se são sonhos ou premonições.
Lembro-me de um desses. Certa vez, eu, ele e minha família estávamos indo de barco conhecer o Delta de Parnaíba. Como nem tudo é ordenado nos sonhos, eu estava no alto de um penhasco e de repente, caí de uma altura infinita, batendo chapado na lâmina d'água. Não deu outra: morri. O mais chato, é que minha mulher não chorou “una lagrima furtiva”, causando imensa indignação à sonhadora.
Duas verdades: quando eu bater as botas, minha mulher não vai chorar nem que a mula fale! Ela pode chorar por outros motivos, pela morte da bezerra, não creio. Segundo: dois meses depois que eu ouvi isso, escorreguei no banheiro de casa. Não morri, mas devo ter passado uns vinte segundos desacordado. Quando minha alma retornou ao corpo, encontro-me com um furo na testa, outra sangrando na cabeça e perdi dois dentes frontais. Na urgência, o médico falou que eu tinha sofrido um troço chegando síndrome vagal.
Hoje pela manhã, na resposta que a Lena me deu pelo bom dia, foi dizendo:
- Como tatu? Tive um sonho contigo. Estávamos eu e tu no velório de nosso amigo… JX. Pense num trem triste!
Triste para a família, para nós foi um evento e tanto. Primeiro porque eu não estava triste e para ser mais verdadeira, se é possível, eu estava feliz. A nossa galera estava toda presente e fiz até um comentário que os intelectuais do grupo não entenderam: Nossa! Morte súbita? E ele nem sofreu?!
Agora, está na moda maquiarem os cadáveres e não sei por erro de quem, colocaram uma taturana emendando as duas sobrancelhas do cara. Como se isso fosse pouco, ainda carregaram no gloss labial. Pense na marmota que ficou! Aquela tanatopraxia estava ridícula e risível.
Tu não disfarçavas o riso e eu já estava explodindo de rir de ti e do defunto. Foi quando te pedi um lenço e por minha conta e ousadia, limpei a cara do morto, deixando-o menos crítico.
Rapaz, para o quê eu fiz isso! A viúva que já não ia “com a minha cara" desde outros carnavais, azedou de vez. Resultado: fomos desconvidados a permanecer no velório.
Como dizemos por aqui: “bempregado” para a minha cara! Já me meto demais nos outros em vida, agora, estou me metendo também na morte. E tu ganhastes um lenço com cheiro de defunto. Para quem tem medo de alma, está de bom tamanho! Ah! O teu lenço tinha um monograma M, m de morto.
De minha parte, que transcrevo o sonho, desejo, ardentemente, que não seja uma profecia, pois ainda que o JX não estique os cambitos, garanto que a cacetada será grande.
Quanto a você, Lena, já está avisada: não compareça ao meu velório, a menos que você me prometa caprichar no deboche!