Enquanto Teresina sangra, o palco político faz silêncio

Silvio Mendes apoia CPI do rombo e avisa: "Sem palanque político"
charge de Silvo Mendes
charge de Silvo Mendes (Foto: chagpt)

Atendendo aos pedidos recorrentes dos leitores da coluna No Radar , voltamos nosso olhar para a crise fiscal que assola a capital piauiense. A situação é dramática: um rombo reavaliado em R$ 3,6 bilhões nas contas públicas, como se o orçamento municipal tivesse tropeçado num buraco negro — e ainda seguimos escavando. Mas, curiosamente, o que mais falta em Teresina não são recursos, e sim coragem política e transparência mínima .

Legislativo esvaziado . Na última sessão da Câmara Municipal, dos 29 vereadores, apenas quatro apareceram . Talvez os demais tenham se confundido com a agenda ou achado melhor manter distância da incômoda realidade. Afinal, discutir um déficit bilionário dá trabalho — e pode comprometer apoios, alianças, nomes e sobrenomes. A verdade é que o Legislativo, tomado por uma disputa previsível entre PP e PT , transformou um debate técnico e urgente em um circo de vaidades ideológicas. E como toda boa peça política, os protagonistas parecem mais preocupados com o próximo ato eleitoral do que com o colapso no palco.

Buraco Negro. No meio da cena está o prefeito Silvio Mendes, que oferece mais retórica do que respostas concretas . Em tom indignado, ele disparou: “Se for para apurar, que apure. Mas não pode virar palanque político.” Uma frase de efeito perfeita — pena que, até aqui, os dados técnicos sobre o rombo seguem guardados em alguma sala trancada da burocracia . Mendes apoia a CPI, sim, mas faz questão de mantê-la sob rédeas curtas, com falas austeras e gestos comedidos, como quem quer parecer transparente sem, de fato, levantar todas as cortinas.

Faz de conta . E por que será que tantos na Câmara fogem do assunto? Simples: puxar o fio da crise pode revelar um novelo de interesses de múltiplas gestões, partidos e lideranças . Um novelo que ninguém realmente quer desenrolar — pelo menos não em ano pré-eleitoral. Melhor, então, fingir que se investiga, posar para a foto e deixar que a poeira do rombo assente sozinha. A omissão, nesse caso, não é covardia: é cálculo.

Enquanto isso, os efeitos econômicos já batem à porta: suspensão de nomeações, corte de serviços, risco de paralisação de obras e possível extinção de órgãos. Tudo isso sem um plano claro de recuperação — apenas a promessa de ajustes duros que, claro, quem vai pagar é o contribuinte, e não os responsáveis pelas contas mal feitas.

Silvio Mendes precisa urgentemente trocar os slogans por planilhas . A população não precisa de frases de efeito, mas de explicações — e ações. E a Câmara, se ainda quiser ser levada a sério, deve comparecer, trabalhar e enfrentar a responsabilidade que lhe cabe, mesmo que isso doa nos próprios aliados.

A conta vem para o contribuinte . Teresina não precisa de mais palanque nem de mais silêncio conivente. Precisa de governabilidade, seriedade e, acima de tudo, respeito à inteligência do cidadão . A crise é fiscal, mas o espetáculo é todo político — com ingressos pagos por quem menos tem culpa: o povo.