Editorial: Entre roxos, rezas e redutos – o milagre político de Oeiras

Governador Rafael Fonteles participa da Procissão dos Passos em Oeiras

Na última sexta-feira, 11 de abril de 2025, o céu de Oeiras chorou. Não se sabe se de emoção, devoção ou pura ironia divina diante da cena: o governador Rafael Fonteles, em plena procissão de Bom Jesus dos Passos, trajando um simbólico roxo penitente, caminhava entre fiéis. Entre relâmpagos e aleluias, o governador testemunhava a fé inabalável do povo piauiense… e, claro, a força eleitoral de seus bastidores.

Foto: Instagram
Procissão de Bom Jesus dos Passos

"Esse momento reflete muito a fé do povo piauiense", disse ele, olhos brilhando — talvez pela espiritualidade, talvez pelo cálculo político. E não estava sozinho na via sacra: ao lado, o senador Marcelo Castro (MDB-PI), tão devoto quanto atento ao eleitorado, seguia firme.

Mas vejamos: Oeiras não é só a primeira capital do estado — é, agora, um verdadeiro reduto do PT. Um reduto conquistado com uma conversão digna de um capítulo apócrifo da Bíblia: Ícaro Carvalho, filho do ex-deputado Assis Carvalho, era o nome natural do partido para a disputa em 2024. Com a bênção de Fonteles, diga-se de passagem. Porém, como Deus escreve certo por linhas tortas (e a política traça tortos interesses por linhas partidárias), surgiu Dr. Hailton.

E foi então que a fé e a política se encontraram no altar das conveniências. As pesquisas, essas epifanias modernas, apontavam vantagem para o doutor. E, como num milagre de multiplicação de apoios, o Solidariedade foi acolhido de braços abertos. “Foi a melhor saída”, disse o deputado Franzé, ex-presidente da ALEPI, como quem anuncia o Evangelho da Realpolitik. “O nome de Hailton é o mais aceito”, bradou, talvez em nome do Pai, do Filho e do voto útil.

A procissão deste ano, portanto, não foi apenas um ato de fé — foi um lembrete de que, no Piauí, as estratégias políticas caminham lado a lado com as ladainhas. Sob a chuva, os fiéis se dispersaram por um momento, mas retornaram. Tal qual os apoios políticos em Oeiras: dispersos no início, reunidos ao final em torno do candidato mais promissor — ainda que de outra legenda.

Porque, no final, a fé move montanhas, mas é o pragmatismo que elege prefeitos. E o roxo penitente do governador? Um belo figurino para um roteiro onde a cruz da eleição já havia sido carregada — e vencida — bem antes da subida ao Calvário de Bom Jesus dos Passos.