Críticas aos juros: um blefe do governo?
Governo aponta o dedo para os juros, mas esconde a própria mão na massa.

A recente moção crítica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI) à decisão do Banco Central de elevar a taxa Selic para 12,25% ao ano evidencia um embate estrutural no Brasil: o dilema entre a estabilidade econômica, perseguida pela política monetária, e o fomento ao crescimento, impulsionado pela política industrial. Liderado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, o CNDI, recriado pelo governo Lula, representa um esforço de articulação entre governo, setor produtivo e sociedade civil para consolidar uma agenda de desenvolvimento econômico inclusivo.
Na moção aprovada por unanimidade, o CNDI argumenta que o aumento da Selic prejudica a retomada do crescimento econômico, dificultando investimentos produtivos e impactando negativamente a geração de empregos e renda. A crítica ecoa preocupações legítimas de empresários, trabalhadores e economistas que veem nos juros elevados um entrave ao dinamismo econômico. A política industrial “Nova Indústria Brasil” (NIB), carro-chefe da estratégia do governo para modernizar o setor produtivo, depende crucialmente de condições financeiras favoráveis para atrair capital e fomentar inovação.
Porém, a crítica do CNDI ocorre em um contexto onde a política monetária do Banco Central está enfrentando dificuldades diante da dominância fiscal imposta pelas políticas parafiscais do governo. Programas de expansão de crédito e aumento de gastos públicos têm pressionado a inflação, reduzindo a efetividade das taxas de juros como ferramenta de controle. O aumento da Selic reflete uma tentativa de conter essas pressões inflacionárias, um objetivo que, embora doloroso no curto prazo, é essencial para preservar o poder de compra da população e manter a credibilidade da economia brasileira.
O embate entre o Banco Central e o CNDI expõe uma lacuna de coordenação entre as políticas monetária e industrial. Um diálogo mais estreito entre as duas esferas é fundamental para alinhar objetivos de curto e longo prazo. Enquanto o Banco Central visa conter pressões inflacionárias, o governo precisa equilibrar os riscos impostos pelas políticas fiscais adotadas, que podem comprometer a saúde das contas públicas e o ambiente macroeconômico.
O episódio também ressalta o papel estratégico do CNDI como fórum de articulação entre governo e sociedade. Representando 20 ministérios e 21 entidades do setor produtivo e sindical, o órgão tem a missão de dar voz a interesses diversos e propor soluções equilibradas. A moção é um recado claro de que o setor produtivo espera ações mais integradas para reverter os entraves ao desenvolvimento.
Por fim, cabe lembrar que políticas públicas eficazes exigem pragmatismo e diálogo constante. A crítica do CNDI à Selic alta reflete uma visão parcial, mas legítima, dos impactos negativos dos juros sobre o crescimento econômico. Cabe ao governo e ao Banco Central encontrar um caminho que harmonize a busca pela estabilidade monetária com a necessidade urgente de gerar emprego, renda e competitividade para a indústria brasileira. Esse equilíbrio, embora desafiador, é crucial para o futuro do país.