Colcha de retalhos

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Colcha de retalhos
Colcha de retalhos (Foto: gerado por IA)

Para a rua 'tranquila e calma',

da janela, em aroma habitual,

vem um cheirinho de fumo,

de café, angu ou mingau.

É lá que vive vozinha,

com seu jeito angelical.

Oitenta anos nos ombros,

mas firme como ninguém,

coque branco bem torcido,

um sorriso que diz amém.

E um olhar cheio de histórias

que o tempo guarda tão bem.

Toda tarde ela se ajeita,

na cadeira, bem juntinha,

mascando o fumo tranquila,

com a linha e a agulhinha,

costurando a vida toda

numa colcha bonitinha.

Tem retalho cor de festa,

tem retalho cor de dor,

tem pedaço de saudade,

de vestido, de amor.

Cada ponto é uma lembrança

que ela borda com fervor.

Vez em quando um neto chega,

levando riso e emoção,

ganha um beijo na testa,

e uma santa bênção na mão.

Se der sorte, leva uma moeda,

pra comprar doce no chão.

Mas é de noite que a vida

vira encanto e magia:

ela abre a sua janela

pra conversar com a tia —

não de sangue, mas do céu,

a Luã, sua companhia.

— Ô, Luã, minha bonita,

tá redonda que é um primor!

Tu clareia o meu quartinho,

me consola a toda dor.

Brilha em cima da colcha nova,

feito um beijo do Criador.

E a lua, boa escutadeira,

responde só com clarão,

banhando a velha janela,

a cadeira, o coração...

E Zefinha segue firme,

no seu doce e santo chão.

Colcha cresce, noite passa,

fumo acende, o tempo vai...

Mas na rua, quem escuta,

ouve um canto que não sai:

é Zefinha e sua Luã,

costurando o eterno — e o mais.