Anistia 8/1 : Júlio César segue PSD e ignora pressão do aliado PT

A sustentável autonomia do PSD do Piauí no Teatro da Anistia

Quando o deputado Júlio César (PSD-PI) declarou que aguardaria o posicionamento do partido nacional para decidir seu voto sobre a anistia dos envolvidos no 8 de janeir o, ele não estava apenas sendo cauteloso. Estava, na verdade, oferecendo uma aula magna sobre como manter a “sustentabilidade política” em tempos de polarização. Afinal, ser aliado do PT no Piauí e, ao mesmo tempo, manter a antena sintonizada com os movimentos de Gilberto Kassab (e, por tabela, Jair Bolsonaro) não é para qualquer um.

O PSD do Piauí, que muitos ainda insistem em chamar de linha auxiliar do Palácio de Karnak, mostrou que sabe jogar o jogo. Alinhado com o governador Rafael Fonteles durante o dia, mas com os olhos voltados para São Paulo ao anoitecer, o partido revela uma incrível habilidade de dançar conforme as músicas que tocam nos palanques nacionais — sem desafinar demais no palco local. E olha que a trilha sonora da política brasileira anda mais parecida com um remix de marchinha com funk do que com uma sinfonia.

A fala de Júlio César caiu como uma bomba de fumaça bem posicionada nos bastidores: "Estamos com o governador... mas também com Kassab... que está conversando com Bolsonaro... que defende a anistia... que o PT abomina... mas tudo bem, vamos ouvir o partido". Traduzindo: o PSD quer continuar colhendo os frutos da aliança no Piauí, mas sem fechar portas para um eventual abraço caloroso do bolsonarismo lá na frente. E se isso não é sustentabilidade política, o que seria?

O silêncio de Gilberto Kassab diante do flerte de Bolsonaro é outro show à parte. O presidente do PSD tem praticado com maestria a arte da ambiguidade estratégica — ou, como preferem os mais cínicos, do “deixa quieto, vai que cola”. Enquanto Kassab mira o governo de São Paulo com um olho, ele mantém o outro bem aberto para uma chance de ascensão junto a Tarcísio de Freitas, caso este resolva disputar a Presidência em 2026. E no meio disso tudo, o PSD vai garantindo seu espaço, como quem planta soja num terreno alugado: a colheita é garantida, independentemente de quem seja o dono da terra.

No Piauí, essa equação se traduz na fórmula do “apoio com ressalvas”. O PSD está com Rafael Fonteles, claro. Mas não ao ponto de contrariar os rumos do partido naciona l. Até porque, convenhamos, ninguém quer brigar com Kassab agora que ele descobriu que pode ser o fiador de um novo arranjo político nacional, com Bolsonaro ao fundo e Tarcísio de Freitas na vitrine. E se para isso for preciso deixar o PT falando sozinho em temas delicados como a anistia, paciência. A lealdade tem prazo, cláusulas e letras miúdas.

O que fica evidente é que o PSD do Piauí, muito mais do que um coadjuvante fiel, tem se posicionado como um ator com roteiro próprio — e com planos bem delineados de sobrevivência e crescimento. A anistia, nesse enredo, é apenas o cenário. O verdadeiro espetáculo é a habilidade do partido em garantir que, venha quem vier em 2026, eles já tenham lugar reservado na mesa. Sustentabilidade, afinal, não é só ecológica — também é política. E o PSD sabe muito bem como reciclar alianças.