A visita de Dom Pedro II a Sergipe

None
A visita de Dom Pedro II a Sergipe
A visita de Dom Pedro II a Sergipe (Foto: Gerado por IA)

Hoje, a chegada de um Presidente da República ainda causa expectativas e euforia, imaginemos, então, a visita do Imperador. A família real com toda pompa, glamourização, luxo e beleza, causava ainda mais inquietação.

Diante de todos essa extasiante evento, no dia 11 de janeiro de 1860, desembarcava na Ponte do Imperador, vindo de São Paulo para Sergipe del Rey, a bordo do vapor Rio Apa, pertencente à Companhia Nacional de Navegação a Vapor, para uma visita a Aracaju, capital com apenas cinco (5) anos de inaugurada e que, na época, tinha cerca de 4 mil habitantes, a família real brasileira.

O vapor Rio Apa, era um barco de luxo e de grande velocidade para seu tempo. Infelizmente, esse vapor naufragara 27 anos depois, no Rio

Grande do Sul matando cerca de mais de 110 pessoas.

A Ponte do Imperador, nada mais era que um desembarcadouro fluvial, um trapiche construído de madeira, sobre a lâmina d'água do Río Sergipe, em 1859, e que em nada se parece com a estrutura que temos hoje, como ponto turístico.

Situava-se em frente a um imenso largo, onde hoje é a Praça Fausto Cardoso e nele uma grande multidão esperava pela comitiva real.

Debaixo de muitos gritos e agitações, o vapor baixou âncoras às 17 horas, contudo, o Imperador só desembarcou às 18:30 horas, em decorrência de fortes precipitações pluviométricas, também conhecidas como chuvas.

Na comitiva imperial, além do Imperador, vinham sua consorte, a Imperatriz Tereza Cristina de Bourbon, o capelão, Padre Antônio José Melo, sergipano, o comandante do vapor, camareiro, mordomo, guarda-roupa e médico. Vieram outras figuras importantes, como os presidentes de Sergipe, Matinho Garcez, Augusto Maynard, Gracho Cardoso, Felisberto Freire, o defensor de escravos Francisco José Alves; os congressistas Fausto Cardoso e Pereira Lobo e Washington Luiz.

Algumas lacunas relevantes persistem, como exemplo: não se sabe quem recepcionou a comitiva real. Eu, autor deste artigo, suponho que o presidente da província, Manoel da Cunha Galvão tenha feito isso, por ululantes razões. Também foi citado Marinho César Garcez como presidente da província, quando na verdade, isso só ocorreu de 1896-1898. Mais intrigante ainda, é a presença de Washington Luiz nessa comitiva, pois, segundo se sabe, o que veio a ser presidente da República, nascerá nove anos depois, em 1869.

Dom Pedro II trajava um uniforme de Almirante, impecavelmente, branco e a Imperatriz usava um vestido de seda, cor chumbo com bordados em estilo chinês.

Girândolas de fogos, palmas e vivas de boas vindas ecoavam por todos os cantos!

Conta-se que havia até um papagaio bem treinando que palrava “viva ao imperador!”

A raia-miúda se espremia tomada de imenso delírio, acotovelando-se para aplaudir o cortejo rumo à Casa de Oração do Salvador, hoje, Igreja de São Salvador, na confluência das ruas Laranjeiras e João Pessoa, para ouvirem o “Te Deum”.

Não é de causar estranheza algumas notícias desencontradas que circulam ainda hoje. Há que jure de pés juntos que o Imperador ficou hospedado num lindo sobrado de esquina com a Praça Getúlio Vargas com Av. Ivo do Prado. onde, atualmente, funciona a Seccional Sergipe da O.A.B. Outros, pela alma das mães, dizem que a comitiva ficou no Paço Imperial, hoje, Palácio Fausto Cardoso, o antigo Palácio do Governo. Essa afirmativa, me parece mais razoável. Depois da missa, aconteceu no Paço Imperial, a longa e esperada fila do”beija-mãos”.

Beija-mão era uma fila onde os vassalos prestavam reverência ao rei e, quase sempre, pediam ajudas. Isso era um ato da cultura lusófona.

Dom Pedro II, segundo o que se comenta, era um homem visionário, à frente de seu tempo, poliglota, amava as artes e a ciência, muito ao contrário dos nossos dirigentes hodiernos.

É bem verdade que Aracaju não oferecia o que se esperava dela, por ser uma cidade muito nova, muito aquém de Propriá e Estância que já dispunham de estruturas definidas.

O Imperador esteve em Sergipe até o dia 20 de janeiro e visitou as cidades de Estância, São Cristóvão, Laranjeiras, Maruim, Barra dos Coqueiros e Itaporanga D’Ajuda.

Algumas dessas cidades foram visitadas ao lombo de burros e aí, entra um fato muito curioso, pelo que eu não assumo a menor responsabilidade, mas pelo que foi dito e noticiado na Internet Buxixo, o Imperador se agradou, sobremaneira, de um cavalo pangaré, muito bonito que pertencia a um dos meus avós distantes. Gostou tanto que o comprou sem espichar a pechincha. Curioso porque como ele tinha deixado o cartão de crédito com a Imperatriz, pagou com um fio do bigode, para posterior resgate. Esse fio de bigode veio passando de geração em geração, até chegar a mim, como se fosse um troféu de ouro. Está valendo uma grana e depositado num cofre de banco.

Era a segunda vez que o Imperador vinha ao Sergipe del Rey, a primeira fora no ano anterior, numa expedição pelo Rio São Francisco, até a cachoeira de Paulo Afonso.

Visto de hoje, poder-se-ia dizer que ele era um “folgado,” que gostava de escruvitear, por não ter nada a fazer, quando em verdade, ele estava conhecendo seu país, conversando com seu povo. As despesas eram todas custeadas por ele.

O que se sabe é que essa visita trouxe grandes benefícios para Sergipe del Rey, como a reforma do Paço Imperial, e construção de pontes e portos fluviais.

Certamente, as pessoas que tiveram a oportunidade de ver a comitiva real, não se davam conta da magnitude de tal acontecimento, por sinal único, pois nas décadas seguintes, aconteceram as tramas e tramóias que desembocaram na Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889 e na expulsão da família real brasileira dois dias depois.

A família real deixou o Brasil rumo à França a bordo do navio paquete Alagoas, ironicamente, nome da terra do Mal. Deodoro da Fonseca, o maior beneficiado com os acontecimentos.

Eu li, pesquisei e conto.

PS.: Uma sinopse desse conto será editada no livro do Bicentenário de Dom Pedro II, de Zecca Pain, com mais 199 escritores.