A porca comeu

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A porca comeu
A porca comeu (Foto: Gerado por IA)

Estamos em período de eleições municipais, o que equivale declarar que a temporada de chutes na canela, revelação de segredos, agressões, facadas e até assassinatos está oficialmente aberta. Se na guerra e no amor vale tudo, nas eleições vale tudo e mais uma arroba e meia. No Piauí, muitos fatos saíram da realidade para o folclore, desafiando o meu, já saturado entendimento.

Em Oeiras, nossa primeira capital, duas famílias adversárias se reversavam no governo do município. Adversários, porém organizados. Quando um dos patriarcas concorria à Prefeitura, o adversário se candidatava a Deputado Estadual. Ambos eram eleitos por séculos sem fim, amém, e seus eleitores brigando nas ruas. Até que um dia, eles ficaram inimigos por culpa da esperteza de um desses malandros.

Por esse tempo, muitas das proibições de hoje não existiam. Os candidatos podiam oferecer transportes aos eleitores, alimentação, bonés, coisas que eu não proibiria hoje. Num dos povoados do município, estava previamente acordado que os eleitores do candidato “A” votariam pela manhã e os do candidato “B”, votariam à tarde. Isso era uma forma de se evitar brigas entre os eleitores. O caminhão que ia buscar os eleitores pela manhã era o mesmo que os levaria de volta ao meio dia e buscaria os que votariam à tarde. Foi numa dessas que a desgraça aconteceu.

Havia no trajeto entre a cidade e o povoado um local conhecido como “apertar da hora”, pois de um lado, a estrada carroçável passava em corte no terreno e, no lado oposto, havia um precipício imenso. Pois bem, quando o caminhão que levava os eleitores da tarde chegou neste ponto, eis a desagradável surpresa: alguém havia derrubado a machado um baita jatobazeiro sobre a estradinha. Com isso, o caminhão não passou e o candidato ”B” foi derrotado exatamente por esse caviloso acontecimento.

Na década de 60, os votos eram realizados em cédulas de papel e depois de serem colocados num envelope branco na cabine, eram colocados na urna, na presença dos mesários, como acontece ainda hoje nos países europeus. Muitos desses votos eram escritos à mão. Com isso, apareciam aos montes votos para quem não era candidato e alguns foram até eleitos como o rinoceronte Cacareco em São Paulo e o Bode Cheiroso, eleito a vereador, em Jaboatão dos Guararapes, na década de 50, ambos já citados em outro artigo.

Em Teresina, a campeã de votos era a maluca Nicinha, uma doida inofensiva, que perambulava pela cidade com uma maquilagem pesada, à base de rouge, pó de arroz e batom encarnado e não dispensava sapatos de saltos Luís XV, colares e braceletes. Formava, de tal jeito, um conjunto destoante, devido à quantidade de penduricalhos, que mais pareciam restos de árvore natalina levada pelo vento. Ela deveria tem uns cinquenta anos, mas aparentava uns setenta e nunca fora candidata a nada, até porque, se o fosse, a candidatura lhe seria indeferida.

As eleições tinham data fixa e aconteciam sempre no dia 04 de outubro. As apurações eram feitas manualmente, voto a voto, na presença dos delegados dos partidos e demorava meses. Pedidos de anulações de urnas eram frequentes e as irregularidades superavam a imaginação dos mais engenhosos palpiteiros, tais como: eleitores que já tinham morrido desde o século passado continuavam votando; o número de votos que excediam em muito o número de eleitores da seção não era novidade para ninguém; os votos escondidos debaixo das mesas de escrutínios eram denuncias recorrentes.

Além disso, quase sempre apareciam denúncias de troca de urnas “prenhes”. Urnas prenhes eram urnas que os candidatos faziam em casa, na calada do sereno e, depois as trocavam pelas urnas verdadeiras dos locais que eles sabiam, de antemão, que teria poucos votos. Tudo isso acontecia em termos de irregularidades e, especialmente, de malandragens e safadezas.

Conta-se, que por esse tempo, na cidade de Campo Maior, a 80 km da capital, um tal Manuca (amalgamação de Mané + maluca) emprenhara com antecedência uma urna, para ser trocada à noite, na véspera das conferências. Tomou a precaução de esconder a “embuchada” no quintal de sua casa, mas, para seu azar, quando a foi buscá-la, teve a desdita de encontrar o local revirado e nada de urna.

Para seu maior descontentamento e vergonha -se vergonha tivesse- ele viu a urna no meio de rua, sendo arrastada por uma porca que tentava encontrar, a todo custo, alguma coisa para encher a pança.

Alguém que passava pelo local logo descobriu a fraude gritou:

-Manuca, a porca está comendo teus votos!

O acontecimento tomou conta da cidade e ganhou citação e imortalidade no estado inteiro. Hoje, quando algum candidato perde a eleição, a voz corrente é de que a porca comeu os votos do referido candidato com candidato e tudo.

Eu já tive amigos que não sobreviveram e acabaram na barriga dessa famélica porca.

São coisas de minha terra

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