Arquivo Pessoal

Abdias Castro

Poeta e escritor natural de Canavieira (PI), residente em Floriano desde 2004, com 19 livros publicados. Membro do Coletivo Farol Literário, teólogo e capelão. Pai de Lorran, Lourrane e Luanna Castro.

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A gang do chiclete Ploc

A Gang do Chiclete Ploc
A Gang do Chiclete Ploc (Foto: gerado por IA)

Minha vida de menino de interior, mato mesmo, não foi coisa pra amadores. Eu era branco que doía nos zói, não à toa sofri na pele, ou por causa da pele, o pão que meus descolegas amassavam. Se eu não tivesse tomado, bem cedo minhas “providenças” nem sei o que poderia ter me acontecido. Por causa da minha brancura tinha uns apelidos tipo, bigôlo de coco. Pra quem não sabe do que se trata; é aquela larva que eu adorava comer crua, que cresce dentro dos babaçus. Quem nunca experimentou quando criança, não invente agora.

Mas, relembrar um de meus mais de vinte nobres apelidos, foi apenas para atiçar meus neurônios, que segundo a Ciência, morrem em meu cérebro na ordem de milhares por hora. Então vamos lá enquanto eu estou me alembrando.

Pra compensar minha magreza e o bullying brancofóbico, eu contava com minhas artimanhas, nem sempre honestas. Uma delas era subornar amizades com gente grande e bom de briga. Formei uma gang; só fiquei sabendo que era gang, quando fiquei grande e fui morar em Teresina no bairro Mafuá... pense numa gang!!! Eu via os caras tocando o terror, riscando o asfalto com umas correntes e barras de ferro e pensava:  eu já tive uma dessas e nem sabia!!!

Pra escapar das surras prometidas em horas de recreio fui obrigado a me precaver, afinal, eu era mole pra briga, um magrelo riquinho, diziam meus algozes:

— Vou te pegar na hora do recreio!

— Te pego no riacho, Barata Branca!

— Hoje o diabo te acha Mandioca Descascada!

— Tua hora vai chegar, Bigôlo de Côco!

Lá estava eu sem recreio sabe-se lá por quantos dias... o pior era ouvir as professoras dizer: Menino inteligente, não perde tempo com recreio. Às vezes eu aprontava pra ir pra diretoria, já que a sala não garantia muita coisa. Mas depois de umas 10 vezes contaram pra minha mãe, que me prometeu um banho de cipó de mata-pasto. Fiquei pensando o que seria pior: ficar sem recreio e sem poder tomar banho no riacho, ou levar uma surra da minha mãe. Claro que era melhor as cipoadas maternas, mas a questão era que eu detestava desapontar minha mãe. Coloquei os neurônios pra funcionar sem pena de gastar os tais... de repente, comecei a olhar para as crianças ao meu redor... comecei a enxergar uns caras que pareciam invisíveis: grandões, tímidos, comportados e excluídos da turma do fundão. Uns usavam óculos fundo de garrafa, outros nunca olhavam nos olhos de ninguém. Pensei com meus neurônios: “Esses caras têm potencial!!!”

Ao invés de fazer o dever, passei horas no quarto com o caderno aberto... fiz uma lista! Bem uns 10 do mesmo tope. Bolei um plano de conquista. Não vou citar os nomes porque os caras estão tudim vivo e nem sonham que fiz isso.

Fiz os cálculos de quantas caixas de Chiclete Ploc por mês eu ia precisar subtrair da quitanda do meu pai pra subornar aquela turma pra andarem do meu lado. Mapeei quem morava perto de minha casa, quem morava no bairro tal, e quem podia ficar até tarde na rua.

Nos recreios que se seguiram, eu saia da sala direto para perto de um daqueles caras:

— E aí, fulano... vai um chiclete aí? Dava logo dois e ficava puxando assunto. Vai fazer o que hoje à tarde? Já viu revista do Tarzan?

Repeti o ciclo por duas semanas e lá estava eu: Na hora que a campainha do recreio tocava, eu era o primeiro a botar o queixo erguido pra fora. Fazia um aceno e logo os caras estavam do meu lado, andava rápido levando aquele bonde comigo. Ali mesmo marcava encontro pra ir tomar banho no riacho, com direito a ki-suco de morando e biscoito Fortaleza. Fazia questão de bolar um trajeto que passasse na casa de pelo menos uns três desafetos.

Alguns antigos desafetos eu esperava tirar a roupa e quando se preparava pra dar um mergulho eu tomava o fôlego e dizia:

— Agora não! Deixa a gente banhar primeiro!

Só sei que tanto eu quanto aqueles caras passaram a viver grandes aventuras juntos graças à quitanda do meu pai.

Até hoje não sei se fiz mal ao mostrar para aquela turma que “amizade vale ouro”, e ouro no meu tempo de criança era Chiclete Ploc!

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