A Bélgica e a jumenta

Dizem que o homem hetero top horrível, vive bem até os 50 e depois começa a descer a ladeira, um tempo em que todo santo ajuda sem precisão. A Bíblia Sagrada não pode estar mentindo, ao declarar que depois dos 70 é só fadiga e canseira. Eu mesmo sinto o vento batendo forte no meu rosto, sinal que a cada ano estou aumentando a velocidade na ladeira. E olha que só tenho 58.
Bem, meu pai destoava desta verdade. Até levar uma queda e morrer, aos 100 anos, um mês e três dias, ele não usava óculos e escrevia e lia bem. Sua agenda era uma folha de papel A4 que ele dobrava até ficar do tamanho de uma caixinha de fósforo. Estou com preguiça de explicar para os que começaram a subir a ladeira agora o que vem a ser uma caixa de fósforo.
Meu pai, que também se chamava Abdias, morreu ser tomar nenhum caché pra pressão ou diabetes, nunca teve nenhuma dessas coisas. E olha que foi dono de farmácia por uns 30 anos. Ferimentos de arame farpado enferrujado ele curara com água e sabão, quando chegava em casa a hora que desse certo.
Mas vamos lá que a estória tá ficando mole. Na Copa do Mundo de 2018 meu pai estava com 94 anos, sem óculos, sem aparelho de surdez e sem ninguém pra sintonizar sua antena parabólica Century, ele assistiu todos os jogos das chaves da seleção brasileira dando pitaco na escalação, inclusive criticando a falta de jogadores que atuavam em solo tupiniquim.
Foi no jogo das quartas de final que a jumenta apareceu pra atrapalhar o meio de campo. Ele estava lá na maior torcida, enquanto o time não correspondia. De repente, uma bola da Bélgica passou arrancando tinta da trave. Segundos depois, antes da adrenalina assentar alguém soltou uns foguetes. Percebi a reprovação do meu nonagenário. Cauteloso que ele era, não disse nada. Apenas tirou o pente do bolso e ajeitou os cabelos para cobrir a calvície que os filhos só sabiam que ele tinha, graças à confidência do barbeiro que uma vez por mês cortava seus cabelos trancado num quarto.
Jogo vai, jogo vem, e outra bola é lançada na área brasileira, e novos foguetes vindo da mesma direção. Ele se levantou e comentou:
— Parece que tem um cidadão da Bélgica pracolá!
— Pois é! – respondi percebendo sua preocupação com a seleção canarinho que amarelou de vez desde o penta. Aliás, quase avermelhou esse ano.
Bom, só deu tempo ele ir no banheiro e quando ia sentando, a Bélgica fez um gol de cabeça. Eu fiquei torcendo para não ser verdade que tinha um ser Belgicâoniano naquele fim de mundo... Pois tinha! O infeliz fez investimentos em foguetes. Dessa vez foram tantos que o cheiro de pólvora entrou pela janela.
Meu pai levantou indignado... a voz rouca:
— Rapaz, se perguntar pra esse infeliz que tá torcendo contra, se a Bélgica é um país ou o nome de uma jumenta ele não sabe!
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