A barraca do beijo

A barraca do beijo
As cidades cresceram tanto que muitos costumes seculares se perderam no meio da multidão apressada e até da memória de muitos
Relembrando as Festas da(o) Padroeira(o)! Que maravilha! Uma vez ao ano, o bairro inteiro se movimentava em torno da igrejinha. A quermesse funcionava após as 18 horas e se estendia até às 23 horas, mas às 22 horas já não tinha muita gente.
Formavam-se dois Partidos, (Azul e Amarelo, por exemplo) cada um com sua barraca muito bem ornamentada e com uma linda donzela candidata a Rainha da festa. Vencia a que conseguisse vender mais votos no período de um mês.
Leilões, rifas, barracas de comidas, barracas de jogos, bingos e sorteios aconteciam sempre.
Além dessas barracas, havia também, as barracas da Delegacia de “Pulíssa”, barraca do tiro ao alvo e a barraca do beijo, fora o parque de diversões.
Ah! A barraca do beijo. Ah! Na barraca do beijo havia uma fila… três moças das mais bonitas estavam lá para atender a clientela: beijo no rosto com a marca do batom, Cr$ 5,00. Beijo “selinho”, Cr$ 10,00
Era comum ver-se os rapazes carimbados no rosto com a marca da boca de uma delas.
A barraca da DP, composta de um delegado e dois “pulissas”. Os pulissas faziam a ronda procurando alguém para colocar na cadeia e as acusações eram as mais criativas. Se por uma infelicidade o pulissa pegasse um rapaz beijando a namorada no rosto, esse estava ferrado. Ia preso e só saia se pagasse fiança.
Naquela época, beijo na boca, em público, nem pensar!
Era por esse tempo em que mais se arranjava namorada, pois a pracinha da igreja ficava apinhada. Fora isso, só aos domingos após a Missa das 19 horas.
Outro dia, andando lentamente pelo passeio central da Avenida Frei Serafim, em Teresina, sentido da igreja de São Benedito, em frente ao Colégio das Irmãs, passei por uma senhora linda, daquelas de cinema, que vinha em sentido contrário. Longilínea, cabelos tipo rabo de cavalo árabe, maquiagem sóbria, traje casual: blusa azul, saia rodada de um azul mais escuro, com bolinhas brancas e tênis colorido discreto. Se não estivesse se movimentando, dir-se-ia ser um manequim de loja dos anos 60 em exposição.
Ela passou por mim e desabafou:
- Mozá!
Virei-me surpreso.
- Você continua o mesmo palhaço de sempre. Fazendo de conta que não me reconheceu!
- Poxa! Desculpa! Franzi os sobrolhos, cavoucando a memória fragilizada e consegui…
- Como eu poderia reconhecê-la? Você está muito mais linda hoje!
Meus Zeus, mais de meio século já se passou. Como eu poderia reconhecer uma das moças da barraca do beijo?! Além disso, já faz quarenta anos que estou morando noutras cercanias.
Tomamos assento num banco próximo e a conversa fluiu.
Ela estava viúva, caminhando elegantemente na estrada dos setenta anos com os filhos criados. Surpreendentemente, mais linda, elegante e agradabilíssima. Em dado instante, eu disse:
- Quero lhe agradecer pela oportunidade que você me deu no meu melhor investimento financeiro e na hora em que eu mais precisava.
Surpresa, ela respondeu:
- Como foi isso? Não tenho lembranças alguma de tal caso!
- Na barraca do beijo, comentei. Foram os Cr$ 10,00 (dez cruzeiros mais bem empregados de minha vida) e, por falar nisso, não repare minhas boas intenções: quanto custaria um beijo seu hoje, na barraca da quermesse?
- Mil reais- respondeu elacom um sorriso maravilhoso!
- O quê? Cruz credo! Que inflação desembestada é essa?
- Rapaz, tive que vender uma parte do meu fígado para pagar um implante dentário. Assim, não custaria menos que isso, mas pra você seria um pouco mais caro, para você deixar de ser gaiato, você aproveitou para tirar uma “casquinha”!
Depois de um tempo, nos despedimos e fiquei observando até que ela sumisse no horizonte. Não marcamos para depois, não trocamos telefone, nem endereços, apenas um abraço apertado. Possivelmente, não voltarei a ver o meu beijo inflacionado de 10.000%
São coisas que só acontecem comigo.
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