Quebra de silêncio: é preciso falar sobre suicídio
Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que, a cada 40 segundos, alguém comete suicídio.


Se você está precisando conversar e tem pensamentos suicidas, ligue para o Centro de Valorização da Vida (CVV) por meio do número 188. As ligações são gratuitas para todo o Brasil.
O ritmo das grandes cidades, o intenso fluxo de informações e acontecimentos, as exigências profissionais, as sobrecargas psicológicas e emotivas, estão entre as inúmeras pressões que sofremos diariamente em nossas vidas. Essas que, a longo ou a curto prazo, interferem no bem-estar da saúde mental. No contexto de uma existência acelerada, a depressão toma para si a alcunha de doença do século XX. Em 2000, a Organização Mundial de Saúde (OMS) previu uma epidemia para 2020, quando 15% da população deixaria de trabalhar por conta da depressão.
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Além do grande impacto na produtividade, assim como na sociabilidade, entre outros fatores, o número de suicídios em casos diagnosticados com depressão tem aumentado exponencialmente em todo o planeta. Sobretudo, vale lembrar que não necessariamente quem sofre de depressão tem tendência suicida. Em média, de acordo com a OMS, são registradas anualmente 800 mil mortes por suicídio, sendo essa a principal causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos. No Brasil o Ministério da Saúde registrou 11.433 mortes, 2,3% maior em comparação ao ano anterior, quando foram registradas 11.178 mil vítimas. O país está no oitavo lugar do triste ranking de países onde as pessoas mais se suicidam.

Vítimas
O quadro de vítimas do suicídio é como um mosaico com peças dos mais variados formatos, cores, consistências e histórias, compondo estatísticas que revelam números que ainda não foram freados. Os dados são de extrema importância para que se possa estabelecer um acompanhamento minucioso das principais causas que levam ao atentado contra a própria vida, os grupos mais vulneráveis e métodos utilizados, propondo uma prevenção mais efetiva.
O recorte racial, por exemplo, ajuda a confirmar que jovens negros conferem um grupo muito suscetível ao suicídio. As fichas sobre inscrições de mortalidades passaram a ser preenchidas atendendo a este recorte há pouco tempo, o que contribui para a compreensão de que o racismo impõe aos negros uma maior vulnerabilidade a situações hostis, de violência, além da autoestima que é afetada ao longo da vida.
Os homens são os que mais tiram a própria vida, já as mulheres são quem mais apresentam tentativas de suicídio, mas que têm menor mortalidade. Quando a abordagem é a distribuição de idade, os jovens são as principais vítimas, a faixa etária com maior número de casos se estende entre 15 e 29 anos. A terceira idade surge como um fator de risco, assim como a questão racial, uma vez que, historicamente, nesse contexto o ser humano tem maior tendência a depressão e ao suicídio. Em comparação, para cada 4 adolescentes que decidem tirar a própria vida, 200 idosos fazem o mesmo.
De acordo com a revista norte americana Pediatrics, uma pessoa LGBT tem seis vezes mais vulnerabilidade ao ato suicida. Em 2018, o Grupo Gay da Bahia (GGB) notificou 100 casos de suicídios entre LGBTs, desde 2016 o grupo considera essas taxas em seu levantamento sobre mortes violentas contra a comunidade LBGT. Esmiuçando os casos, as lésbicas representaram o maior aumento de atos suicidas de 2017 para 2018: 52%. Gays tiveram um aumento de 45%, pessoas trans uma diminuição de 14% e bissexuais permaneceram com 3%.

Prevenção
No Sistema Único de Saúde (SUS) existe a Rede de Atenção Psicossocial, onde se traça a linha de cuidado acerca do suicídio. A coordenadora do CAPS em Floriano, Idalina de França, explica que o primeiro ponto de acolhimento são as Unidades Básicas de Saúde (UBS), em seguida estão os pontos de urgência e emergência, como o SAMU e o Hospital Regional Tibério Nunes, que recebem casos necessitados de pronta assistência médica. No topo da estratégia da Rede estão os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que atuam também em emergências e com maior acolhimento técnico, contando com equipes multidisciplinares no atendimento de pacientes em seus mais variados estados de saúde psíquica.
Para a psicóloga Rose Batista, o suicídio é um problema de saúde pública, assim como é um ato de comunicação, ato este que diz muito sobre as vulnerabilidades humanas. Ela lembra que 90% dos casos são passíveis de prevenção, e frisa que precisamos estar atentos a quais sinais dados estão passando despercebidos. “Devemos criar e fortalecer redes de acolhimento, a sociedade precisa se unir e falar sobre o suicídio, botar por terra os tabus e mitos que existem em torno deste fenômeno social”, explica a profissional que atua em Floriano no Desenvolver, um espaço centrado na promoção da qualidade de vida através de suporte psicológico, educacional e sócio comunitário.
Manifestações comportamentais, sociais e emocionais, de acordo com a psicóloga Rose Batista, constituem os sinais que devem ser observados com atenção. O comportamento mais retraído que o normal, distanciamento de amigos e familiares, envolvimento com álcool e outras drogas, histórico familiar de suicídio fazem parte deste quadro de evidências. O acompanhamento psicológico para familiares, amigos e parceiros afetivos de pessoas que lutam para sobreviver aos impulsos suicidas também é aconselhável.

Setembro Amarelo e CVV
Para mobilizar a comunidade em torno de um assunto tão delicado e que pode se fazer presente em qualquer lugar, desde 2014, no Brasil, acontece o movimento Setembro Amarelo, estendendo a conscientização do Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, que ocorre no dia 10 de setembro desde 2003. A campanha visa sensibilizar e conscientizar a população sobre essa questão, através de diversas atividades que envolve toda a comunidade.
O Centro de Valorização da Vida, o CVV, é um dos principais mobilizadores do Setembro Amarelo, a entidade atua desde 1962 na prevenção do suicídio e atualmente conta com a linha 188. Serviço de 24h de apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat. O Grupo de Apoio aos Sobreviventes de Suicídio do CVV oferece amplo atendimento e aconselhamento aos que sofrem com essa perda abrupta.
O atendimento é realizado por voluntários que precisam ter mais de 18 anos e pelo menos quatro horas disponíveis por semana e vontade de ajudar pessoas. Para isto, é preciso participar de um curso gratuito de preparação de voluntários, que pode ser presencial ou virtual.
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