Orgulho é poder dizer: eu sou
Marcos Antônio conta sua jornada de autoconhecimento e aceitação como homem gay.

No Brasil, ser LGBTQIAPN+ ainda é um ato de coragem. Embora o país tenha avançado em termos de direitos civis, como o casamento igualitário e o direito à adoção, os números da violência e da discriminação continuam alarmantes. De acordo com organizações de direitos humanos, o Brasil permanece entre os países que mais matam pessoas LGBTQIAPN+ no mundo. Por isso, o Dia do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado em 28 de junho, carrega um peso que vai muito além das cores da bandeira. Ele representa memória, visibilidade e, sobretudo, resistência.
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A data marca o aniversário da Revolta de Stonewall, em 1969, quando um grupo de pessoas LGBTQIAPN+ se rebelou contra a violência policial em Nova York. O episódio é considerado o estopim do movimento moderno por direitos civis da comunidade. Mais de cinco décadas depois, a luta continua — agora enfrentando outras formas de apagamento, preconceito e exclusão, inclusive dentro da própria sigla. Para muitas pessoas, viver o orgulho ainda é uma construção diária, feita com dor, paciência e persistência.

É o caso de Marcos Antônio. Homem gay, ele só conseguiu se aceitar plenamente depois dos 30 anos. Até lá, percorreu um caminho silencioso de conflitos internos, saúde mental fragilizada, repressões impostas por uma sociedade violenta e também por estereótipos enraizados dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+. Hoje, com mais firmeza na voz, ele compartilha sua trajetória — não como uma história isolada, mas como um eco da realidade de milhares.

Marcos descreve o processo de autoconhecimento como algo difícil e doloroso. “Por mais que ele seja muito particular, por mais que ele seja muito íntimo, eu o descreveria como um processo muito difícil devido a essa questão mesmo da aceitação, de como, a partir de que momento, a gente tem essa virada de chave. E, através do autoconhecimento, nós começamos a entender e a aceitar quem nós somos”, conta. Ele explica que até chegar nesse ponto, passou por um longo período de repressão. “Nós temos uma sociedade altamente preconceituosa, altamente machista, que faz com que nós reprimamos a nossa essência. Essa aceitação da minha sexualidade só se deu depois dos meus 30 anos. Um momento decisivo foi quando entrei na universidade. Ali eu passei a ver a infinidade de possibilidades de ser e de estar no mundo.”

Antes disso, os conflitos internos marcaram profundamente sua trajetória. Desde a puberdade, mesmo sabendo que era gay, Marcos sentiu que precisava esconder seus sentimentos. “Eu me reprimia muito. Precisei me esconder, reprimir meus desejos. Isso fez com que eu internamente travasse. Esses sentimentos reprimidos foram me adoecendo mentalmente. Passei por estados depressivos muito relacionados à questão da aceitação. De entender que, por mais que eu seja homossexual, eu sou uma pessoa normal, com princípios éticos e morais. O fato de eu ser gay não faz de mim uma pessoa melhor ou pior que qualquer outra.” Ele relata que esses conflitos afetaram diretamente sua autoestima e saúde mental, deixando marcas que ainda reverberam hoje.
Mas o preconceito que enfrentou não veio apenas de fora. Dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+, ele encontrou olhares duros e julgamentos. “Existe muito preconceito relacionado aos estereótipos. Isso é uma questão que eu passo muito. Quando a gente fala do estereótipo da bicha afeminada, contrapondo à bicha padrão de masculinidade, surgem aquelas falas: ‘você pode até ser viado, mas tem que ter jeito de homem’. Quando performo uma feminilidade no meu andar, no meu falar, isso é visto com muito preconceito — inclusive dentro da própria comunidade. Esses padrões e exigências são muito perceptíveis, inclusive em relação à juventude.”

Apesar de tudo, Marcos guarda com carinho o momento em que, pela primeira vez, sentiu que podia ser verdadeiramente quem era. Foi quando se assumiu para os pais, ambos do interior do Piauí. “Meu pai é bem mais velho, a própria personificação do cabra macho. E, mesmo assim, quando eu decidi falar para eles, tive total apoio. Isso fez com que eu virasse a chave e entendesse que ali eu poderia ser quem eu realmente era. Me deu paz.”
Hoje, olhando para trás, ele sabe exatamente o que diria ao menino que precisou se esconder por tanto tempo: “A gente precisa olhar para nós mesmos no espelho e dizer: se respeite. Se ame. O ser diferente não me faz melhor ou pior do que ninguém. O que eu diria para o meu eu do passado é: se respeite. Continue nesse processo de autoconhecimento. Você é uma pessoa livre para ser feliz da forma como você bem entender.
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