Luto coletivo: Psicóloga explica como dor compartilhada afeta uma comunidade

Com a morte do Papa Francisco, o luto coletivo está sendo vivenciado por milhares de pessoas.
Foto: ReproduçãoMilhares de pessoas foram se despedir do Papa Francisco.
Milhares de pessoas foram se despedir do Papa Francisco.

Em momentos de grandes perdas públicas ou tragédias que abalam uma nação, o sofrimento se espalha como ondas em um lago — alcançando pessoas que, muitas vezes, sequer tinham ligação direta com a vítima ou com o acontecimento. É o que a Psicologia chama de luto coletivo: uma dor compartilhada, vivida em comunidade, e que ultrapassa as barreiras do individual.

A morte de um artista querido, de uma autoridade religiosa - como o Papa Francisco, nesta semana -, ou catástrofes como a tragédia da boate Kiss ou o rompimento da barragem em Brumadinho, mobilizam emoções profundas e memórias afetivas em larga escala.

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Nos últimos dias, com a morte do Papa Francisco na última segunda-feira (21), vimos pessoas do mundo inteiro se unirem para lamentarem a morte do pontífice, inclusive pessoas de religiões diferentes. Milhares de pessoas foram até a Basílica de São Pedro, no Vaticano, para se despedirem do líder religioso, mesmo sem nenhuma ligação pessoal com ele.

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Mas por que choramos por quem não conhecemos? Como as redes sociais transformaram a maneira como lidamos com a dor alheia? E quais os impactos desse tipo de luto, especialmente entre os mais jovens?

Para responder a essas e outras questões, conversamos com a psicóloga clínica Karla Dayana Timóteo Coelho, de 45 anos. Moradora de Teresina (PI), ela é pós graduada em luto, com formação em tanatologia (teoria ou estudo científico sobre a morte, suas causas e fenômenos a ela relacionados) e intervenções em perda e luto.

Foto: DivulgaçãoKarla Dayana é psicóloga clínica, especialista em luto.
Karla Dayana é psicóloga clínica, com pós graduação em luto.

Karla Dayana explica que o luto coletivo é diferente do luto individual, principalmente na proporção que alcança.

“O luto individual, é vivido por quem perde alguém próximo, é um processo pessoal e único. O luto coletivo se manifesta quando uma comunidade, um grupo social ou até em uma nação, que compartilha o impacto da morte de uma figura pública significativa, um acontecimento trágico ou algo que abala uma comunidade como um todo. A dor se expande, se expressa nas ruas, nas igrejas, nas redes sociais. O impacto do luto coletivo costuma ser amplo, afetando comunidades inteiras, enquanto o luto individual tem um impacto intenso e particular, vivenciado de forma única por quem sofre a perda.”

Uma morte que resulta em um luto coletivo é tão significativa que, muitas vezes, é mais fácil sentir empatia e vivenciar o luto por uma figura pública do que por alguém próximo a uma pessoa do nosso convívio. Isso acontece porque, com artistas, líderes ou personalidades famosas, criamos vínculos simbólicos e emocionais baseados em memórias, identificação e valores compartilhados. Trata-se de um luto mais “seguro” e amplamente aceito socialmente, o que facilita sua expressão. Já diante da dor de alguém do nosso círculo social, surgem barreiras emocionais como o medo de invadir o espaço do outro ou o desconforto de lidar diretamente com a realidade da perda. A empatia, nesse contexto, depende do grau de identificação e de quanto aquela perda ressoa dentro de nós.

Embora o termo “luto coletivo” não ser popularmente comentado, a psicóloga dá exemplos de situações de luto coletivo muito conhecidas - e que acontecem com mais frequência do que gostaríamos.

“Exemplos de luto coletivo são as mortes de figuras públicas influentes como artistas, cantores, e um exemplo atual é a morte do Papa, que impacta a comunidade cristã mundial. Tragédias nacionais ou internacionais, como atentado de 11 de setembro nos EUA (2001), tragédia da boate Kiss (Brasil, 2013), rompimento da barragem em Brumadinho (Brasil, 2019). Há também catástrofes naturais com grandes repercussões, como terremotos, enchentes, tsunamis ou outros desastres naturais com vítimas fatais.”

Apesar do luto coletivo ser algo compartilhado por muitas pessoas, Karla Dayana explica que as reações e sintomas desse luto são subjetivas e mudam de pessoa para pessoa. Mesmo compartilhando a mesma dor, cada um a sente de forma diferente.

“Cada indivíduo vivencia a dor de maneira única, podendo apresentar tristeza profunda, choro frequente, angústia diante de homenagens ou notícias, sensação de insegurança, choque e forte impacto emocional. Quando o evento envolve violência, tragédias ou acidentes, é comum emergirem sentimentos intensos de vulnerabilidade e fragilidade diante da vida.” 

“Além das emoções, também é comum observar alterações comportamentais, como a busca por informações e homenagens: muitas pessoas sentem necessidade de acompanhar notícias, assistir a cerimônias, compartilhar postagens ou participar de rituais públicos. É comum haver mudanças na rotina, como alterações no sono, apetite, humor e dificuldades de concentração ou no ritmo das atividades diárias. Existe também a necessidade de conversar sobre o acontecimento, seja para entender, compartilhar sentimentos ou buscar conforto, em grupos, redes sociais ou espaços informais.”

A profissional esclarece que as redes sociais tem um papel importante durante o luto coletivo, podendo ajudar no processo de passar pelo período de luto ou então atrapalhar e tornar esse período mais difícil de ser encarado.

“As redes sociais pode tanto favorecer quanto dificultar sua vivência. Por um lado, elas oferecem visibilidade a perdas que muitas vezes seriam silenciadas, conectam pessoas enlutadas, possibilitam homenagens virtuais e incentivam mobilizações sociais em torno do reconhecimento da dor e da busca por justiça. Por outro, podem banalizar ou espetacularizar o sofrimento, impor uma performance pública do luto, disseminar desinformação. Dessa forma, seu impacto está diretamente ligado à maneira como são utilizadas e à capacidade de acolher, com sensibilidade e responsabilidade ética, as manifestações de dor e memória.”

Questionada sobre muitas pessoas visitarem páginas na internet pertencentes a artistas ou pessoas famosas que já morreram e consequentemente geraram um luto coletivo, a psicóloga fala sobre os prós e contras desses acessos.

“Para a Psicologia pode ser visto de diferentes maneiras, pois depende do contexto emocional individual. Por um lado, isso permite manter uma conexão emocional e pode ajudar no processo de luto ao oferecer uma forma de homenagear e lembrar a pessoa, além de criar uma comunidade de apoio. Por outro lado, se o comportamento se torna obsessivo, pode dificultar a aceitação da perda, incentivar a idealização da figura falecida e reviver a dor emocional, o que torna mais difícil superar o sofrimento.”

Mesmo que o luto coletivo seja algo comum e natural, a psicóloga Karla Dayana explica que, em alguns casos, o sofrimento pode gerar traumas e afetar as pessoas próximas.

“Quando a dor e o sofrimento não são reconhecidos, elaborados ou apoiadas de forma adequada, por exemplo o desastre de Brumadinho, em Minas Gerais, Brasil, pode causar um trauma. A tragédia afetou toda comunidade local e a falta de respostas rápidas gera sentimentos de revolta, injustiça e abandono. Podendo causar traumas como Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), aos sobreviventes e futuras gerações.” 

Foto: Isis MedeirosFamiliares das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho prestam homenagens aos falecidos.
Familiares das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho prestam homenagens aos falecidos.

Engana-se quem pensa que todo luto coletivo é reconhecido de forma ampla. O luto coletivo também pode acontecer no contexto do luto não reconhecido. O fenômeno do luto não reconhecido ocorre quando uma perda significativa não é validada ou reconhecida pela sociedade, o que pode intensificar o sofrimento daqueles que vivenciam essa dor. Isso pode acontecer, por exemplo, em tragédias que não ganham a atenção pública adequada ou em contextos em que a perda é invisibilizada.

“Pode acontecer quando uma sociedade ou comunidades inteiras sofrem uma perda que não são validadas socialmente. Como por exemplo tragédias ambientais ignoradas, pessoas em situações de rua, violência como feminicídio, morte por racismo estrutural. Em situações como essas, o luto coletivo tende a ser marcado pela invisibilidade social, o que pode agravar o sofrimento vivido e dificultar a elaboração e a ressignificação da perda.”

O tema também necessita de uma atenção especial quando crianças e adolescentes são impactadas pela morte e fazem parte do grupo que vivencia o luto coletivo. Segundo a psicóloga, nessas pessoas a morte ou tragédias podem gerar medo, insegurança, confusão, tristeza, alterações no sono e no apetite. Ela ainda ressalta que o apoio de um adulto é de extrema importância para que os menores compreendam os acontecimentos e possam tirar suas dúvidas. Além disso, é necessário que a dor da criança ou adolescente seja validada e observada e, em alguns casos, é preciso buscar a ajuda de um psicólogo especializado.

Karla Dayana também esclarece que não há um prazo final para que o luto de uma pessoa acabe.

“No luto não existe um tempo certo para vivenciá-lo, o luto é um processo singular, O essencial é acompanhar como a pessoa atravessa a perda com o passar do tempo. Embora a dor não tenha prazo para terminar, ela pode ser acolhida, elaborada e ressignificada ao longo do processo.”

Apesar do tempo de luto ser diferente para cada um, Karla Dayana explica que é necessário dar um novo significado para o luto e explica algumas estratégias que a psicologia recomenda para que essa ressignificação seja feita.

“Os rituais e homenagem são muito importante nesse momento para manter viva a memória, podendo ser através da arte, projetos sociais, grupos de apoio. No caso das tragédias, a comunicação amplia a consciência crítica e evita que os fatos se repitam. Transformar a dor em memória é também um ato de resistência e de cuidado com o futuro.”

Foto: ReproduçãoFãs do One Direction prestam homenagens para ex-vocalista da banda, Liam Payne.
Fãs do One Direction prestam homenagens para ex-vocalista da banda, Liam Payne.

Com base nas reflexões da psicóloga Karla Dayana, podemos concluir que o luto coletivo é um fenômeno complexo e multifacetado, que não se limita apenas à perda de uma figura pública, mas também envolve uma rede de emoções compartilhadas e significados construídos socialmente.

Instagram Karla Dayana Timóteo

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