Samarco e Vale são multadas em R$ 1,8 bilhão por deduções fiscais

Decisão do Carf mantém autuações a Samarco e Vale por deduções.
Passagem da lama pelo Rio Doce, por causa do rompimento de duas barragens em Mariana (MG).
Passagem da lama pelo Rio Doce, por causa do rompimento de duas barragens em Mariana (MG). (Foto: Leonardo Merçon/Instituto Últimos Refúgios/Divulgação)

A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) obteve uma decisão favorável à União em relação ao pedido da Samarco Mineração S.A. A mineradora havia deduzido, de forma indevida, valores referentes a recuperação ambiental e multas ambientais do Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), entre 2016 e 2019.

O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) seguiu o posicionamento da PGFN, mantendo as autuações no valor de mais de R$ 1,8 bilhão para a Samarco e a Vale, acionista da mineradora.

Durante o julgamento, o procurador da PGFN, Vinícius Campos, destacou que, caso a decisão favorecesse a mineradora, descaracterizaria o sistema punitivo do direito tributário. Segundo ele, isso criaria um "sistema contraditório", onde penalidades aplicadas pelo Estado poderiam ser utilizadas como benefícios fiscais.

A Samarco argumentou que os valores deduzidos eram essenciais para suas operações, considerando a atividade de risco ambiental da mineradora. A empresa afirmou que as despesas operacionais são normais e usuais, portanto, dedutíveis.

A empresa justificou que os valores suprimidos decorreram de acordos judiciais, como o Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC), que estabeleceu a criação da Fundação Renova para gerenciar o processo de reparação e indenizações. Parte desse valor teria sido paga em multas ambientais.

Na defesa da Fazenda, a PGFN alegou que tais gastos não atendem aos critérios legais de necessidade, normalidade e usualidade e que sua dedutibilidade seria uma socialização indevida do risco empresarial.

Após o termo de ajustamento, a Vale S.A. foi definida como responsável subsidiária por ser acionista da Samarco. O Carf negou o pedido de dedução de despesas da Vale, alinhando-se à decisão para a Samarco. Em nota, a Samarco informou que continuará discutindo o assunto nos processos judiciais e reafirmou seu compromisso com a reparação. Ainda cabe recurso no Carf.

Entenda o caso

Em 5 de novembro de 2015, ocorreu o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, sob responsabilidade da Samarco. O desastre resultou em uma enxurrada de lama que devastou o distrito de Bento Rodrigues, deixando 19 mortos e centenas de desabrigados.

A onda de rejeitos percorreu mais de 650 quilômetros pelo Rio Doce até o litoral do Espírito Santo, caracterizando-se como um dos maiores desastres ambientais do Brasil. A lama danificou significativamente a biodiversidade local, afetando peixes e outras formas de vida aquática, além de comprometer o abastecimento de água potável nas cidades próximas ao rio.