O cripto dólar pode ser uma alternativa ao IOF em pagamentos e remessas

Stablecoins ganham espaço no Brasil em 2025 e superam Bitcoin nas compras de criptoativos.
Stablecoins ganham espaço no Brasil em 2025 e superam Bitcoin nas compras de criptoativos.
Stablecoins ganham espaço no Brasil em 2025 e superam Bitcoin nas compras de criptoativos. (Foto: Reprodução)

A combinação de um real mais instável, aumento do IOF nas operações de câmbio tradicionais e o avanço da usabilidade em aplicativos fez com que o chamado “cripto dólar” — stablecoins como USDT e USDC — se tornasse protagonista no mercado brasileiro em 2025.

De acordo com a edição mais recente do relatório “Panorama Cripto na América Latina”, produzido pela Bitso, essas moedas digitais já representam uma fatia expressiva das transações no país. No primeiro semestre do ano, 35% de todas as aquisições de criptoativos no Brasil foram em stablecoins. Pela primeira vez, o USDC assumiu a liderança isolada, respondendo por 24% das compras, à frente do próprio Bitcoin, que ficou em 21%.

O que explica essa guinada?

A principal razão é a estabilidade: o valor atrelado ao dólar traz previsibilidade em um momento de maior volatilidade do real. Além disso, a liquidação quase instantânea e a integração crescente com sistemas de entrada e saída de recursos em reais — como o Pix — tornam o processo mais ágil e acessível.

Esse movimento não elimina a importância do Bitcoin, que segue como reserva de valor para investidores, nem fecha espaço para outras criptomoedas. Mas mostra como o uso prático das stablecoins, principalmente em transferências e remessas, tem ganhado destaque no cotidiano financeiro dos brasileiros.

Tributação: o fator que impulsionou a mudança

O aspecto tributário também pesou. Desde julho, com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), operações de câmbio tradicionais — como compra de moeda em espécie, gastos no exterior com cartão e transferências pessoais — passaram a ter IOF de 3,5%.

Na prática, isso encareceu rotas convencionais em dólar e abriu espaço para alternativas digitais. A compra de stablecoins com reais, por não ser considerada operação de câmbio, fica fora da incidência do IOF-câmbio. É justamente essa “brecha” que tem transformado as stablecoins em um atalho para pagamentos e remessas internacionais.

Ainda assim, especialistas alertam que o usuário não está livre de outros custos, como tarifas de rede, spreads e eventuais tributos sobre ganhos de capital. Além disso, quem opera em exchanges internacionais deve cumprir regras de declaração mensal e incluir os ativos na Declaração de Imposto de Renda.

Brasil segue tendência da América Latina

Esse cenário acompanha um movimento regional. Em vários países latino-americanos, stablecoins também avançaram em 2025, sustentadas por uma infraestrutura mais madura de liquidez e integração com serviços locais. No Brasil, a facilidade do Pix e a presença crescente de provedores nacionais reduziram a fricção na entrada e saída de recursos em reais, fortalecendo o ecossistema.

O contexto global também favorece. A capitalização das stablecoins voltou a crescer, reforçando a percepção de liquidez e confiança, e consolidando seu papel como ponte entre finanças tradicionais e o universo cripto.

Regulação no radar do Banco Central

No campo regulatório, o Banco Central do Brasil (BCB), que recebeu do Marco Legal dos Criptoativos (Lei 14.478/2022) a função de supervisionar empresas do setor, mantém consultas públicas sobre o tema.

A mais recente, aberta em junho de 2025 e com prazo até 24 de agosto, deve dar origem a novas normas até o fim do ano. A tendência, segundo analistas, é uma convergência regulatória que aumente a transparência, padronize regras contábeis e fortaleça a segurança operacional.

Ainda que, tecnicamente, a compra de stablecoins com reais não configure câmbio, a interoperabilidade com o sistema financeiro tradicional deve se tornar cada vez mais regulada, impactando provedores de liquidez, on-ramps e off-ramps no país.

O recado para o investidor

As stablecoins surgem como solução prática em meio à alta de custos no câmbio tradicional, mas o avanço regulatório indica que esse “atalho” pode ganhar novas regras em breve. Para o investidor brasileiro, o desafio é equilibrar conveniência e conformidade fiscal, aproveitando o crescimento da criptoeconomia sem descuidar das obrigações legais.