Teresina, terra de muro baixo

Teresina, Terra de Muro Baixo
Certo dia, abrindo minha página do Facebook, dei de cara com um protesto em vídeo sobre o péssimo estado da BR-316, na entrada de Teresina. A pessoa, indignada, a certa altura esbravejou:
– Aqui é Teresina, a terra de muro baixo!
Pra quê?! Eu me acabei de rir, porque conheço essa estória, desde que eu era menino, contada por minha mãe. Tendo certeza de que quase ninguém conhece, apenas repete um dito popular quase esquecido no tempo, inclusive por mim, resolvi esclarecer a origem do ditado.
O consagrado escritor piauiense, Assis Brasil, escreveu um livro intitulado“Zé Carrapeta, O Guia de Cego”, que narra as peripécias inerentes a essa tão estranha profissão, mas não fala no Muro Baixo.
Conta-se que, em Teresina, não sei de fato a época, havia um cego que esmolava pela cidade, levado por seu guia. Os dois caminhavam sem parar, pelos mais estranhos brocotós da cidade. Convenhamos que esta não é lá uma das coisas mais agradáveis do mundo, mas a verdade é que o cego conhecia bem a cidade inteira. Muita gente achava que o garoto o enganava na contagem das esmolas..
Muitos podem pensar que é fácil enganar um cego, mas não é. Um dos ditos populares cita que, quando Deus leva os dentes de uma pessoa, lhe alarga a garganta. Ou seja, um cego desenvolve outras aptidões, para superar a perda da visão.
Em Teresina, havia um tal Zé Cego, dono de uma quitanda, situada lá para as bandas do Mafuá, que não errava nunca no troco dos clientes. Na época em que aconteceu uma grande leva de moedas falsificadas, quando uma lhe era entregue na compra, Zé Cego, simplesmente, pegava uma talhadeira e um martelo, fazia um X nas duas faces da moeda e, em seguida, devolvia ao dono. Aquela estava condenada e todas as pessoas sabiam que aquela tinha sido rejeitada por Zé Cego.
Mas voltando à nossa história...
O garoto, guia de cego, não era lá flor que se cheirasse! Menino traquina, cheio de nós pelas costas, arredio, era um sofrimento a mais na vida do cego patrão, que só ainda não o substituíra, por falta de oportunidade. O menino era, na verdade, o diabo em forma de gente. Já desconfiado de que poderia receber “bilhete azul” a qualquer momento, também já engendrara uma vingança por antecipação, só estava esperando uma boa oportunidade. E quando é para o mal, o destino se encarrega disso rapidamente...
Um dia, o pobre do cego se viu acometido de uma baita dor de barriga. Alguma coisa não lhe caíra bem no estômago e ele precisava de um local para se aliviar do incômodo. Delicadamente, pediu ao guia que o levasse a um local apropriado. O desalmado saiu puxando o cego pela bengala e o colocou perto do obelisco do marco zero na Praça Marechal Deodoro, que ainda hoje é mais conhecida como Praça ou Parque da Bandeira (embora não tenha bandeira alguma lá), dizendo-lhe que ali era um lugar seguro, atrás de um muro.
Naquela época, o Parque da Bandeira nada mais era que um largo imenso e arborizado, com muito mais oitizeiros do que hoje e sem qualquer pavimentação. Era passagem obrigatória para quem se dirigia ao mercado central ou vindo de Timon, no Maranhão, via canoa pelo rio Parnaíba, para o centro de Teresina.
É óbvio que uma pessoa, naquela posição inconfundível, não sairia despercebida dos olhares indiscretos. Por infelicidade, muitos meninos jogavam bola ali, num campinho de pelada. Levadas pelo sadismo, algumas começaram a gritar e dar gargalhadas:
– Olha o cego cagando...! Olha o cego cagão, gente...! Vai cagar no mato, cego...!
Sem entender como havia sido descoberto, o cego exclamou, desesperado:
– Eita diacho! Vôte, cruz credo! Ô terra de muro baixo!
Assim nascia um dos adágios mais comentados de minha época e que agora eu conto, para que não se perca no tempo.
São coisas de minha querida terra de muro baixo.
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