Questão de honestidade

Segunda quinzena de junho de 1989, com apenas dois meses que eu tinha chegado para resistir em Aracaju, fui fazer uma entrevista de emprego na Construtora Limoeiro, indicado pelo superintendente da empresa.
A Construtora Limoeiro estava pavimentando a rodovia Gurupi-Peixe, hoje, BR-232 no estado do Tocantins.
O Eng° Paulo César não quis ver meu currículo, não perguntou onde eu havia trabalhado. Fez-me apenas uma pergunta, que eu franzi a testa por não entender.
- Você sabe fazer de um, dois!
- Minha calculadora é exata. Por favor, seja mais claro.
- Você sabe duplicar valores?
Nesse ponto, eu entendi perfeitamente.
- Doutor, eu sei, mas não posso fazer isso sozinho, irei precisar de alguém, hierarquicamente, acima de mim que me autorize. Ainda assim, irei me cercar de todos os substantivos, adjetivos, numerais e advérbios para que essa bomba não exploda na minha mão e explodindo não sobrarão casos. Que fique bem claro meu posicionamento, eu sou um técnico em Estradas e Agrimensura. Não sou mágico para fazer aparecer ou desaparecer.
Terraplenagem é um serviço que, nem por milagre, alguém executa sem roubar muito. Exceto, quando feita por Grupamentos de Engenharia do Exército, porque não existem fins lucrativos. Fora isso, coloco minha cabeça na forca se me provarem o contrário. Não existe construtora alguma que passe nesse teste de honestidade. Topógrafos, engenheiros, laboratoristas de solo e concreto, tanto da construtora quanto do órgão fiscalizador, são todos um bando de descarados, venais e dissimulados. Até hoje, só encontrei três profissionais que não se deixaram subornar, nem venderam a alma das mães ao diabo e eu sou um desse. Alguns desses, causavam-me nojo. Pronto#falei!
Eu só fui contratado pela Construtora Limoeiro por ter sido indicado por alguém acima dos demais. No entanto, quando cheguei em Gurupi, colocaram-me para tomar conta das medições de pequenos subempreiteiros, comumente chamados de “gatos”. Eu vi que estava sendo descartado do “esquema”, quando chegou uma moça, técnica, para ficar no lugar que, supostamente, seria meu.
Fui contratado no início de julho e a cada três meses, tinha uma semana de folga para visitar a família. Todo o corpo técnico da empresa tinha essa regalia e a empresa ressarcia as despesas de viagem e foi aí que tive meu segundo desentendimento com a “conjuntura”.
Eu era o único profissional que residia em Aracaju, os outros moravam em Salvador, local da sede da construtora.
Chegou setembro e eu aproveitei a folga para passar o meu aniversário em casa.
Saindo de Salvador ou de Aracaju para o Gurupi, por não ter linha de ônibus direto, as duas opções eram descer em Brasília ou Anápolis, pernoitar e no dia seguinte pegar outro ônibus. No meu caso, eu preferia pernoitar em Anápolis.
Quando eu apresentei, pela primeira vez, as notas das despesas das viagem ida e retorno, a tesouraria demorou para fazer a devolução. Era comum isso acontecer em menos de meia hora. Lá para as tantas, alguém me chamou na tesouraria e sem muitos esforços senti que tinha treta.
O tesoureiro, sem arrodeios, já foi despejando:
- Pô, meu rei! Que notas são essas? Você mora mais distante e seus valores são menos da metade das nossas despesas! Assim você arrebenta com a gente! Vou refazer isso aqui novamente.
Eu já sabia, por ter visto num restaurante, um dos funcionários pedindo uma nota em branco, apenas assinada pelo garçom. Era comum essa prática. Em casa, as notas eram superfaturadas.
Eu falei para o tesoureiro: meu caro, eu du-vi-d-ó como você nem ninguém irá mexer nesses valores. Se alguém fizer isso, eu não assinarei o termo de recebimento e tem mais: eu tenho essas notas xerocadas.
Pronto, estava declarada a guerra. Em dezembro, quando vim para o Natal com a família, já vim transferido para uma obra na cidade de Nossa Senhora Aparecida-SE. Foi muito bom para mim e excelente para eles.
Então o esquema era esse: a construtora roubava do estado, recebendo por aquilo que não entregava e os funcionários da construtora roubavam dela para si.
Quanto mais eu vejo os brasileiros sendo roubados pelos políticos, mais tenho certeza de que “a ocasião não faz o ladrão”, mas sim, o ladrão faz a ocasião.
Somos um povo degenerado que se acostumou com todas as ilicitudes. Uns estão como anestesiados, outros se fazem de cegos e a grande maioria não está”nem aí”, conquanto não lhe falte a bola família.
Não faço parte dessa corja, prefiro morrer lutando, indignado, berrando no deserto ou falando para ouvidos moucos.
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