Arquivo Pessoal

Mozaniel Almeida

Piauiense de coração e alma, contador de causos por vocação e técnico em Agrimensura por formação. Vive em Aracaju desde 1989, onde segue espalhando seu bom humor e amor pela terra natal. Autor do livro É Causo? Deixa que eu conto, também participou de obras coletivas. Não é poeta nem filósofo — é só um cabra arretado que gosta de contar histórias.

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O segredo do defunto

O segredo do deefunto
O segredo do deefunto (Foto: criação IA)

     Tenho uma amiga aqui em Aracaju, cujo programa favorito é velório. Telefona- me às 5 horas da madrugada, para me avisar quem morreu e pedindo que eu vá para o sepultamento. Nunca fui e nem irei, tenho medo de alma penada. Então, o que irei fazer lá? Outra coisa: velórios são locais onde nem sempre se exercita o respeito devido. Aparecem causos inacreditáveis e, como eu acredito em tudo, prefiro me abster .
        Além disso, tem umas pessoas de um mau gosto comprovado. Acham de morrer na sexta-feira à tarde, quando já estamos com os compromissos da noite “acertadinhos”... Ou então, escolhem morrer no sábado, para esculhambar com tudo de vez.
        O fato foi que Manezinho partiu desta para a melhor, esticou as canelas, bateu as botas, fez a viagem sem retorno e sem levar farofa de torresmo. Chorar não mudaria o curso dos acontecimentos. 
        Era uma pessoa conhecidíssima no bairro. Bem casado e sem filhos para se matarem pela pequena herança. Como de costume, o corpo estava sendo velado em casa, no quintal, por ser mais arejado. 
        O sepultamento foi marcado para as 17h, no Cemitério São José. Pobre tem essa mania de não querer ser enterrado no bairro onde vive...
        Lá para as tantas, um de seus conhecidos, ao passar pela rua, notou aquele movimento estranho na casa e resolveu se aproximar. Qual não foi sua surpresa ao ver Manezinho esticado num paletó de madeira, quando há exatos dois dias estiveram juntos na pracinha, conversando lorotas. Morrera de morte morrida, sem quê nem pra quê, sem causa ou circunstância, de uma hora pra outra, sem dizer nem até logo. 
        Sensibilizado, o amigo passou a tecer elogios rasgados a Manezinho, o que deixou os circunstantes admirados pelo enorme conhecimento que ele tinha do morto.
        – Manezim, meu velho amigo de infância...! – lamentava-se o amigo – Homem cumpridor de suas obrigações, nunca chegou atrasado ao trabalho! Era amigo de todo mundo, prestativo, sempre que via alguém em dificuldades, era o primeiro a se oferecer para ajudar...Sujeito honesto, nunca se ouviu falar em algo que lhe desabonasse a conduta...Tomando dinheiro emprestado, pagava; se lhe deviam, não cobrava, não fazia vergonha a ninguém... É verdade que gostava de tomar uma cervejinha nas quatro festas do ano, que ninguém é de ferro, mas tudo dentro dos conformes... Homem respeitador taí um, não dizia gracejo com “fia de seu ninguém”...
        Enquanto os elogios prosseguiam, as pessoas concordavam, balançando as cabeças. A viúva, aos prantos, ouvia tudo ali ao lado. Alguns parentes também se mostravam comovidos com as palavras do amigo. 
        Diante de tantos elogios, era visível a tontura alcoólica do falastrão, coisa que já começava a causar alguns constrangimentos... 
        Mas ele continuou:
        – “Manezim” era daqueles que faziam “vaquinha” para pagar o aluguel de um amigo que estivesse em atraso... Não era de bagunça, de casa para o trabalho e do serviço pra casa... Gostava de jogar peladas com os amigos e não dava pancada em ninguém, era uma moça dentro do campo... Nas pescarias de anzol, era comum dividir os peixes com ou outros, para que ninguém saísse prejudicado...
        Até que chegou uma hora em que se esgotaram todos os elogios do estoque e foi aí onde tudo se perdeu. A viúva tinha se retirado para o seu quarto, talvez para ficar um pouco só com as suas dores.
        – Pois é... Vida ingrata essa de “Manezim”!...  o coitado, morreu sem saber que era corno...! Diziam que ele era igual a rinoceronte: tinha chifres até na venta! Coitada também  da viúva, pois a culpa nem era só dela, porque pense num cara que gostava de ser "viado"! “Manezim” era daqueles que chorava...! Tinha vocação pra coisa... Vixe! Como isso gostava de homem, nossa! Mas também isso não é da conta de ninguém!...
        Parece que  algumas pessoas sabiam dessa realidade, pois uns não sabiam se riam ou se lamentavam, tanto que daí  em diante nada mais prestou. Tinha gente mordendo os beiços para conter o riso e outros, revoltados com aquelas ofensas. 
        Os cunhados do defunto, então, resolveram botar o insolente para fora de casa, debaixo de chutes, tapas e rabos de arraias. 
        Para azedar de vez o angu, neste exato momento, ia passando uma viatura da polícia e o conduziu preso para a delegacia.
        Na delegacia, mais um show do bêbado, tentando se explicar ao delegado:
        – Seu delegado, Vossa Excelência me desculpe, mas eu não estou entendendo é nadinha. Eu passei a vida toda inventando estórias, mentindo e nunca fui processado. Tenho a ficha mais limpa que o governador Petrônio Portella. Agora, no dia em que eu falei a verdade, me bateram como se bate num jegue e o senhor ainda me prendeu...
        – Habeas corpus deferido, pode ir embora. – disse o delegado, ovacionado pela multidão que estava em frente à delegacia.
        São coisas de minha terra.


 

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