O liberalismo de Milei e o caminho para um Peso Forte
Argentina e a luta pela estabilização: Milei entre liberalismo e a realidade fiscal

A economia argentina, historicamente marcada por ciclos de crises e tentativas frustradas de estabilização, começa a dar sinais de recuperação sob a gestão de Javier Milei. Com uma abordagem ortodoxa, focada na contração monetária e no ajuste fiscal, o governo conseguiu frear a inflação e reduzir a volatilidade cambial. No entanto, desafios estruturais persistem, e a trajetória de recuperação ainda depende da sustentação dessas políticas no médio prazo.
A desaceleração da inflação de211,4% ao ano (dezembro de 2023) para117,8% (dezembro de 2024) é, sem dúvida, um feito considerável. Mais impressionante ainda é o recuo da inflação mensal para 2,7%, um nível que, embora elevado, representa um alívio substancial para consumidores e empresários. No entanto, o peso da contração monetária e da disciplina fiscal sobre a atividade econômica levanta questões sobre a sustentabilidade desse ajuste.
O câmbio, sempre um termômetro da confiança no governo, apresenta uma estabilidade relativa se comparado a períodos de hiperinflação. A desvalorização do peso em11,24%nos últimos seis meses reflete um controle mais eficiente da taxa de câmbio, especialmente após a decisão do governo de reduzir o crawling peg de2% para 1% ao mês. Essa medida limita a perda de valor da moeda e dá previsibilidade aos agentes econômicos, mas impõe desafios à competitividade externa do país.
Os números da balança de pagamentos revelam, no entanto, que a estabilidade macroeconômica ainda não se traduziu em uma posição externa confortável. O déficit deUS$ 55,966 bilhões em 2024 indica que a Argentina segue consumindo mais dólares do que gera, um problema agravado pelo crescimento do uso de cartões de crédito no exterior, que movimentou US$ 645 milhões em janeiro de 2025. Esse aumento no consumo dolarizado pode sinalizar uma melhora na confiança do consumidor, mas também pressiona as já debilitadas reservas do Banco Central.
A política monetária de Milei, inspirada nos preceitos libertários, busca um equilíbrio delicado entre disciplina fiscal e abertura econômica. A promessa de eliminar o controle cambial até 2026 pode atrair investidores e reduzir ineficiências do mercado, mas o sucesso dessa estratégia dependerá da capacidade do governo de manter o ajuste sem comprometer a atividade produtiva e a geração de empregos.
O governo Milei, ao contrário de gestões anteriores, parece comprometido em evitar atalhos populistas e manter o curso da austeridade. A confiança em um plano econômico não pode ser construída apenas sobre a contenção de gastos e a ortodoxia monetária; é preciso fomentar crescimento sustentável e reduzir incertezas políticas. Para a Argentina, esse será o verdadeiro teste nos próximos anos: consolidar a estabilidade sem sufocar sua própria recuperação.
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