O diabo e a secretaria

Existe, aliás, uma determinada analogia de homem com aliança e carro parado no estacionamento com a chave na ignição: ambos estão implorando para serem levados! Claro que essa afirmação não procede, pelo menos até ao término do vigésimo capítulo.
Nem tive tempo de responder porque uma afirmação já cortava o ar.
- Você é um homem bonito…
A vontade de gargalhar não foi pequena, mas me contive.
- Muitíssimo obrigado! Você é a segunda pessoa que me diz isso em mais de meio século. A primeira foi minha mãe. Isso me leva a deduzir que já não temos tantos olhos generosos, ou pecam pela sinceridade do silêncio.
- Você trabalha em quê
- Sou engenheiro.
- Engenheiro civil e intelectual. Que maravilha!
A exclamação tirou-me de uma enrascada pelo meu tirocínio pouco explorado.
- Não! Não sou isso que você falou e nem sou engenheiro civil e também nem sei porque entrei aqui. Trabalho num engenho de moer cana no interior. Uma moagem pequena, mas eu gosto de lá. Sou o responsável por limpar e fazer a manutenção das moendas do engenho. Também cuido de tanger as duplas de bois, que rodam as moendas que tiram a garapa.
Senti como se a moça despencasse de um penhasco siberiano. A decepção que lhe assomara seria impossível ocultar. Ele levantou-se numa lentidão silenciosa e saiu. Ainda me deu vontade de oferecer mais um copo!
Pois é, quando o Diabo não vem manda o secretário. Outras vezes ele vem com secretário e tudo mais.
Ah! O nome do livro: Encrenca, de Non Pratt.
São coisas que só acontecem comigo.
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