Arquivo Pessoal

Mozaniel Almeida

Piauiense de coração e alma, contador de causos por vocação e técnico em Agrimensura por formação. Vive em Aracaju desde 1989, onde segue espalhando seu bom humor e amor pela terra natal. Autor do livro É Causo? Deixa que eu conto, também participou de obras coletivas. Não é poeta nem filósofo — é só um cabra arretado que gosta de contar histórias.

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O conto do vigário

O conto do vigário
O conto do vigário (Foto: Gerado por IA)

          Coisas que só acontecem comigo - XXXVII

    Quando a Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi criada, aqui, no nosso bairro, nosso primeiro Pároco, Padre Arnóbio Patrício de Melo, ou simplesmente, Padre Arnóbio, cuidou de formar um Conselho Paroquial, com poderes administrativos, composto por seis membros; o Presidente de Honra, que era o próprio pároco, um Presidente administrador, dois secretários e dois tesoureiros. Todos com mandato de dois anos, com exceção do pároco. 

    Fui escolhido como 1° tesoureiro. As reuniões para avaliação aconteciam ao final de cada mês. Nunca tivemos problemas, até que uma tarde me aconteceu uma daquelas!

    Era uma segunda-feira, quando um homem de aspecto humilde me chamou à porta de minha casa, pronunciando corretamente meu nome, o que não é muito normal. Pelos trajes, julguei-o inofensivo e abri a porta, pedindo-lhe que entrasse. 

    Ele tinha o semblante triste e sofrido e seus olhos estavam marejados. Eu sou do tipo que não suporta ver lágrimas. Fico abalado, por isso nunca vou a hospitais nem a velórios.

    O homem já vinha sendo empurrado com a barriga por outras pessoas. Passara primeiro na igreja e uma pessoa o mandara à casa de uma das coordenadoras da pastoral do canto que, por sua vez, o encaminhou para a casa de uma das secretárias da paróquia. Esta logo se lembrou de mim e o mandou até minha casa, pois, segundo ela, eu era a pessoa que poderia resolver-lhe o problema. 

    O caso era que aquele homem estava com uma filha de oito anos morta no Hospital de Cirurgia e precisava fazer o sepultamento. Sem dinheiro para comprar o caixão, foi pedir ajuda à Igreja.

    Para os que não sabem, o conjunto residencial Orlando Dantas está encravado no bairro São Conrado, embora muitos pensem que são distritos diferentes, tanto que, quando se fala no bairro, de cara já se sabe que não é no conjunto. Pois bem, o homem morava na Rua C..., no São Conrado.

    Por aquele tempo, telefone celular era coisa de rico e só existiam os famosos modelos conhecidos como “tijolões”. Por isso, como eu não possuía celular, liguei pelo fixo para a residência do padre, que ficava no centro de Aracaju, já que ainda não tínhamos a casa paroquial.

    Eu precisava dar-lhe conta da urgência de sua presença ou, pelo menos, de uma autorização verbal dele, para que fosse feita a doação. Era, na verdade, um caso inédito para nós. 

    Nessas horas, não é fácil descobrir o santo de plantão. O padre não estava em casa, havia saído para uma reunião na Cúria Metropolitana e isso me impossibilitava de ligar para o celular. 

    Eu poderia ter ligado para o presidente do conselho, que mora no mesmo conjunto que eu, só que eu já estava tão envolvido emocionalmente com o problema, que nem me lembrei disso.

    À medida que o tempo passava, mais aflito o homem ia ficando, principalmente quando eu lhe disse que o padre não estava em casa.

    Pelas minhas contas, um caixão, naquele tempo, pelos valores de hoje, deveria custar, aproximadamente, uns R$ 800,00 (oitocentos reais). Para minha sorte, o homem disse-me que não precisava ser um caixão de luxo. Sendo assim, um ataúde artesanal custava, em média, cerca de R$ 50,00.

    Como o mais importante era ele conseguir retirar a filha do hospital elevá-la pra casa, tomei a decisão. Conferi o atestado de óbito, o carimbo médico com CRM, R.G. e o endereço. Tudo estava em perfeita ordem. 

    Fomos, então, ao templo, de onde retirei o dinheiro e lhe entreguei. Ele ficou na obrigação de me retornar dois dias depois com a nota fiscal do caixão, para que eu pudesse prestar contas na próxima reunião do Conselho Paroquial. Por motivo de segurança, fiz com que ele assinasse um recibo referente à quantia doada.

    Passados os dias combinados e vendo que ele não retornava, fui ao endereço que estava na certidão de óbito. Não era longe, apenas umas oito quadras depois da minha casa.

    Ao chegar na tal rua C, n° 320, vi que não existia casa alguma, era apenas um terreno baldio. Procurei saber nas proximidades se alguém tinha notícias daquele morador que tinha perdido uma filha recentemente, mas ninguém sabia nada a respeito.

    Fui ao Hospital de Cirurgia e falei com a assistente social que me informou que na data referida aconteceram, de fato, dois óbitos no hospital, mas de pessoas idosas e do interior. E me explicou que, nos casos em que a família não pode arcar com as despesas funerárias, o hospital tinha um convênio que cobria esses custos. Por último, ela também afirmou que o hospital não tinha conhecimento nenhum da existência daquele legista que assinara o documento. 

    Como não me restasse nada a fazer, retornei para casa, com uma sensação absurda de ter sido enganado. Nunca mais vi o tal homem e, se o vi, graças a Deus não o reconheci.

    No dia da reunião do Conselho Paroquial, solicitei a presença das pessoas que mandaram o tal homem à minha casa e todos confirmaram o que eu contei. Tudo ficou registrado em ata e a vida seguiu seu curso.

    Fica a dica...

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