Arquivo Pessoal

Abdias Castro

Poeta e escritor natural de Canavieira (PI), residente em Floriano desde 2004, com 19 livros publicados. Membro do Coletivo Farol Literário, teólogo e capelão. Pai de Lorran, Lourrane e Luanna Castro.

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O buraco do esquartejado

O buraco do esquartejado
O buraco do esquartejado (Foto: gerado por IA)

Meu pai foi, talvez a pessoa mais bem humorada que já conheci. Não se iludam, não era um hilário qualquer, ele era polido e bem sério. Arrancava risadas sem descer da postura austera e solene. O corre da vida me privou de conviver com meu velho o quanto eu gostaria.
Muito cedo deixei nossa casa em Canavieira, quando ainda era um belo povoado e vim estudar em Floriano, e depois fui para mais longe, na capital. Depois parti para Brasília onde trabalhei até me aposentar. Tão logo recebi o primeiro contracheque de aposentado voltei para cá, para o torão de nascença. Decidi ir morar uns anos em Canavieira, agora já emancipada. Queria aproveitar um pouco da companhia do meu sábio. E durante minha estadia ouvi pérolas como está:
Meu pai sempre foi um cara de muitos amigos. Ele tinha duas amizades com os colegas fazendeiros e tinha a amizade dos trabalhadores em sua propriedade. 
Já com 95 anos parou de dirigir sua Caminhonete L-200, tração 4x4, com o nome dele e da Fazenda Cachoeira estampado no vidro traseiro da boleia. 
Por esses amigos de roça ele fazia de tudo, mesmo que os favores representassem prejuízo.
Todo criador de gado sabe a importância de ter roças de baixão como são chamadas as terras de beira de rio. Ali o capim é mais viçoso, o gado anda menos e as vacas dão mais leite. Essas terras são a salvação de muito pecuarista no período da estiagem. 
Pois bem, meu velho dava quase toda a terra de beira de rio para "seus amigos". Para eles plantarem vazantes, aquelas rocinhas onde se planta um jerimum, melancia, abóbora, quiabo, macaxeira, batata e até gergelim.
Enquanto isso seu gado ia pastando pelas beiradas. Isso ainda lhe trazia uma preocupação adicional de manter o gado longe das tais rocinhas de vazante. Era vazante do Belinho, vazante do Benigno, vazante do Carmino, do Delço, do Nonatão, do Mundico, da Maria, da Joana do Nego e por aí vai.
Os filhos viviam alertando que esses trabalhadores desmatavam a margem do rio para plantar suas leguminosas e isso era um desastre ecológico. Papai dizia que isso não procedia, e que era de lá que seus amigos tiravam as misturas da mesa durante a estiagem. E que esses homens e mulheres eram seus "informantes de um tudo" que acontecia na fazenda.
Ele se prestava a advogar pelos seus rendeiros e agregados. Alguns faziam casas dentro da terra e a gente dizia: 
- "Isso aí dá usucapião!" 
Outros faziam grandes buracos na terra para fazer tijolinhos e carvão. Foi aí que surgiu o tal buraco do esquartejado.
Meu irmão entrou em casa bufando alto, as veias saltando do pescoço... Tinha encontrado um lugar na roça todo esburacado de caieiras (fornos artesanais de fazer carvão. Um buraco assim que anda perto de caber um carro de passeio. Falou para papai quem era o responsável pela degradação e que o dito cujo estava derrubando madeira pra fazer carvão pra vender.
Papai, como bom advogado ouviu tudo atentamente, e depois saiu com essa defesa.
- "Que nada siô, tá fazendo tempestade em copo d'água. Eu já tinha visto aquilo, é coisa pouca. E eu nunca ouvi dizer que ele vende carvão. É a família que é grande. Além disso, são uns buraquinhos de nada... Não cabe um corpo dentro... Só se esquartejar!"

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