Arquivo Pessoal

Mozaniel Almeida

Piauiense de coração e alma, contador de causos por vocação e técnico em Agrimensura por formação. Vive em Aracaju desde 1989, onde segue espalhando seu bom humor e amor pela terra natal. Autor do livro É Causo? Deixa que eu conto, também participou de obras coletivas. Não é poeta nem filósofo — é só um cabra arretado que gosta de contar histórias.

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Judas

Judas
Judas (Foto: Gerado por IA)

    Judas

   Em Teresina, lá pela década de 60, ainda causava muitas expectativas a “malhação do Judas". Em todos os bairros havia essa tradição e em muitos casos com a leitura debochada do “Testamento do Judas".

    Nesse testamento, que era lido em alta voz, antes da malhação, os agraciados eram, na maioria das vezes, os políticos e “osamigos”: 

- Minha cueca, deixo para a dona F… fazer coador de café, na banca do mercado da Vermelha! 

- Meus óculos, deixo para o doutor J… que pensa que entende de oftalmologia! 

- Minha dentadura, deixo para veia M… fofoqueira desdentada, que não para de falar da vida dozoto! 

- Meu bornal, deixo para o governador botar o dinheiro que ele está roubando do povo… ( bons tempos! Hoje, o dinheiro desviado só cabe no trem)

- Para o Padre Carvalho, deixo uma rolha de cortiça para ele usar na boca, pra deixar de criticar que faz Judas…

    Era verdade, o padre Francisco Carvalho foi uma das primeiras vozes a se erguer contra a malhação do Judas.

    Paralelamente, sempre havia um segundo grupo que, à espreita, sondava quem estaria construindo um Judas. O objetivo era furtar o boneco na noite da Sexta-feira Santa. De lambuja, se fosse possível, furtar também uma galinha para comer assada na bebedeira de sábado.

    Vale lembrar, que a grande maioria das casas, em vez de muros, eram protegidas por cercas de talos de buritis. Nesse caso, se o Judas estivesse no quintal, facilmente, poderia ser surrupiado.

   Era assim a casa de Batoré, um dos construtores de Judas do meu bairro. 

    Avisado de que uma gangue (não havia essa palavra, até então) Estava se organizando para furtar o boneco. Batoré, além de não se importar com o aviso, ainda resolveu facilitar o delito, fazendo, ele mesmo, um buraco na cerca, num dos pontos estratégicos.

    Para que o furto tivesse sucesso, era necessário contar com a traição de uma das pessoas que estavam trabalhando na confecção do espantalho. Um Judas de verdade passando informações de dentro para fora.

    O boneco ficou pronto na Quinta-feira Maior e foi posto debaixo de uma grande mangueira existente no quintal. À noite, num breu tremendo e à sombra da mangueira, o Judas estaria bem protegido. Claro que essa informação vazou para o conhecimento da gangue.

    No dia seguinte, Batoré que tinha uma espingarda cartucheira de dois canos, trancou-se em seu quarto de dormir e preparou seis cartuchos com pólvoras, buchas e sal em pedra. Por essa época, não tínhamos esse sal grosso para churrasco.

    Disso o informante traíra não sabia. 

    Durante a Sexta-feira da Paixão, todas as atividades foram paralisadas. Batoré aproveitou para fazer uma armadilha no quintal. Essa consistia em esticar uma linha de nylon pelo quintal, próxima à mangueira. Ao primeiro esbarrão, a linha soltaria algumas latas cheia de cacos de telhas penduradas no alto da mangueira.

    Batoré montou campana! Espingarda na mão, ouvidos atentos, aguardando, esperou e esperou… por volta das 3 horas da madrugada, ele viu os cabras chegando e passando um a um, pelo buraco antes preparado. Eram cinco e uma vez dentro do quintal, rumaram todos para onde estava o Judas.

    Batoré com a espingarda fazendo pontaria… de repente, alguém topou na linha e a barulheira das latas descendo de mangueira abaixo era assustadora e os tiros da espingarda cortando a madrugada, completava a festa. Batoré atirava esmo. Fazia dois disparos, tirava os cartochos, colocava outros dois e apertava os gatilhos alumiando a noite.

    Os cinco penetras, entre eles o informante, passaram levando a cerca nos peitos como um estouro da boiada, igual a operação “fuga cavalos de Tróia". Não ficou nada pela frente que resistisse o tropel dos desesperados. Metade da cerca foi ao chão e o barulho da turba acordou a vizinhança, com alguns saindo da casa em trajes nada convencionais. Numa cidade pacata, aquele pandemônio acontecendo na madrugada, era a epifania do Apocalipse.

   Às 10 horas da manhã, o Judas foi enforcado após a divulgação do testamento, mas nada tinha mais importância que os comentários do quase furto do traidor de Jesus. 

    São coisas da minha terra.

    

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