Festa no cemitério

Pra não ser assaltado, entrei no cemitério,
Numa tétrica e fria noite de lua nova,
Ao pular sobre o muro, cai numa cova
Aberta, veja, então, que grande despautério.
Naquele tão macabro e esquisito ascetério,
As caveiras faziam sensual festança,
Mas faltavam bebidas e sem comilança,
Gerava-se ali um vil descontentamento,
Daquele inusitado e fétido momento,
Nascia acirradíssima desconfiança
.
O assunto ia ficando cada vez mais sério.
Ossos secos batendo em outros secos ossos,
Numa dança de finos ossos contra grossos,
Naquele tão disforme e grande necrotério.
Eu que estava escondido em cova de mistério,
Rilhando dentes contra dentes só de medo,
Podia ser descoberto e ser posto em degredo,
Arrepiei-me ao ver a caveira dentuça,
Rodopiando e rindo com escaramuça,
Em contradança co'outra que faltava um dedo.
Algumas reclamavam do "vei" Zé Firmino,
Que zabumbava por demais fora do tom
Tinha caveiras machos usando batom,
E outros requebrando-se e falando fino.
Vi esqueletos de homem, mulher e menino,
No entanto, ali, ninguém respeitava ninguém,
Alguém pôs a mão boba nas 'partes' d'alguém,
Dentro da cova, eu vi o pau comeu dobrado!
Melhor me teria sido na rua assaltando,
Que estar no cemitério de todos refém.
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