Eu e os cajus


Cresci num povoado maravilhoso chamado Canavieira, onde minha maior diversão, e de meus amigos era 'coletar' frutos silvestres na mata virgem que circundava todo o lugarejo, e de vez em sempre pular as cercas de uns quintais pra roubar manga, goiaba, ata e até melancia. A estratégia era chegar na roça sem arrodeio, assoviar e andar altaneiramente... vendo que não tinha ninguém por perto, soltávamos um grito: “Seu fulaaano! Seu cicraaaano! Se ninguém respondesse era a senha para o ataque. Às vezes, no meio da festa tínhamos que sair às carreiras, trumbicando aqui e acolá, com a barriga pra espocar de cheia.
Saíamos em trio ou grupo de no máximo cinco, despretensiosamente, sem hora pra voltar. Não levávamos mochilas, nem água, nem merenda. A fome que nos matava, matávamos colhendo os frutos silvestres da estação: canapu, grão-de-galo, maria preta, criolí, jenipapo, jatobá, araçá e tantos outros. Medo de morrer de sede? Conhecíamos todas as fontes, córregos e olhos d'água pelo nome. Bebíamos água filtrada na cacimba. No mês de julho o movimento era o caju e a castanha, além das arapucas para pegar juritis. Eu conhecia cada pé de caju num raio de uma légua. Eu sabia de onde era a castanha, só de olhar para elas. Eu tinha a mania de ver um rosto em cada castanha, e umas eram feias, outras bonitas e outras lindas que só. Também enxergava a pobreza estampada na cara de algumas. Outras pareciam chorar ou sorrir. Com as castanhas espalhadas na calçada eu dizia:
- Essa é lá da roça do Delson. Aquela é da roça da Maricô, essa outra é lá do quintal de fulano. E por aí vai.
Eu olhava a castanha e visualizava o caju. Sabia a cor e o sabor do caju daquela castanha. Não trazíamos cajus para casa, apenas as castanhas que colocávamos para secar e depois, ou vendíamos para o Zé Domingo, ou assávamos para vender nos festejos de São Raimundo, junto com as juritis assadas. Às vezes vendíamos no comércio local. Um dia o comerciante encheu as mãos com minhas castanhas e soltou essa olhando nos meus olhos e do meu sócio:
— É de lascar... vocês roubam castanhas na minha roça e depois vêm na maior cara de pau, me vender o que é meu.
Só de raiva nunca mais vendi castanha pra ele..., mas quando via a gente saindo por algum canto do povoado ele gritava:
— Já vão né?
Pense numa raiva..., aquele grito acusador tinha o poder de estragar nosso dia.
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