Arquivo Pessoal

Mozaniel Almeida

Piauiense de coração e alma, contador de causos por vocação e técnico em Agrimensura por formação. Vive em Aracaju desde 1989, onde segue espalhando seu bom humor e amor pela terra natal. Autor do livro É Causo? Deixa que eu conto, também participou de obras coletivas. Não é poeta nem filósofo — é só um cabra arretado que gosta de contar histórias.

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Cláudio, o gladiador.

Cláudio, o gladiador.
Cláudio, o gladiador. (Foto: Gerado por IA)

    Conheci Cláudio em 1974, trabalhando no Exército Brasileiro. Ele era um homem de seus sessenta anos de vida e muito ao contrário do que seu nome significa, segundo etimologia, ele não claudicava. Deveria ter oitenta quilos bem distribuídos por 1,78m de altura. Desempenhava a função burocrática e, como não éramos amigos, apenas conhecidos, nem me lembro mais da secção onde ele trabalhava. Sei que era homem de pouquíssimas palavras, falando apenas o necessário. Não andava rodeado de amigos, como normalmente se espera num ambiente onde o número de homens é predominante. 

    Levava sempre consigo uma pasta de couro preta, maltratada pelos anos, no estilo das antigas pastas de médicos, sendo duas vezes maior. Seu aspecto físico chamava a atenção pelos vastos e bem tratados bigodes grisalhos, muito semelhantes aos antigos coronéis nordestinos. Sempre de chapéu, do mesmo tipo usado pelos cantores sertanejos de hoje. Qualquer semelhança com os bigodes do Barão do Rio Branco, não seria exagero, com a particularidade de que os dele tinham as pontas finas viradas para cima. Notava-se, sem muitos esforços, que eles eram seu maior orgulho.

    O meu primeiro encontro com Cláudio foi de forma acidental quatro anos antes e, para ser bem explícito, não poderia ter sido um acidente mais conturbado. No cruzamento da Avenida Campos Sales com Rua Dr. Area Leão, onde hoje existe um orelhão, havia um bar na esquina, que nem era muito frequentado, porque, da parede até o balcão refrigerado, havia um espaço de no máximo dois metros de largura, onde três mesas estavam disponíveis para os fregueses.

    Naquela época, eu trabalhava numa fábrica de móveis de madeira ali perto, onde hoje é um escritório/sede do Partido dos trabalhadores (PT).

    Todos os dias, por volta das 15h, eu ia àquele bar fazer um pequeno lanche, mas daquela vez, adentrei no recinto ao mesmo tempo em que aquele homem incomum. Teresina não era ainda uma grande metrópole e eu me recordei de já o ter visto algumas vezes na cidade. Numa das mesas, dois homens tomavam uma cerveja. Eram os únicos clientes do bar, até então.

    Certamente os que me leem já ouviram um adágio que diz: “Em casa de enforcado, não se fala em corda”, ou “quem está no mato, não fala em cobra”. Naquele dia, eu tive a certeza de que não se deve nem pensar. Eu olhei para o rosto daquele homem de quem eu não sabia o nome e pensei comigo: “Eita bigode bom de se tomar com cachaça!” Logo eu que não tomo aguardente! Pensei e o capeta pôs as palavras na boca de um dos que estavam à mesa que, imediatamente repetiu baixinho para o amigo: “Eita bigode bom de se tomar com cachaça!”

    O bigodudo era um homem de cor branca para fogoió. Nós estávamos a menos de um metro de distância, encostados ao balcão e notei que ele estava ficando com o rosto mais avermelhado. Gentilmente, ele acenou para o dono do bar e falou com ele ao pé do ouvido:

    - Por obséquio, o senhor tem aí uma tesourinha?

    - Não, mas tenho uma de tamanho médio, serve?

    O quitandeiro trouxe a tesoura e nem eu nem ninguém fazia a menor ideia do pedido. A seguir, o freguês disse ao dono do bar para colocar duas doses duplas de aguardente em dois copos, o que foi feito. Para minha total surpresa, vi quando o camarada cortou a ponta de um dos bigodes rente ao lábio, depois, picou-o dentro de um dos copos. Posteriormente, repetiu o gesto, cortando a outra ponta do bigode e colocando-a no outro copo. Parecia-me tudo metodicamente estudado e executado. Depois, com o dedo indicador dentro do copo, fez um redemoinho para que os pelos ficassem bem distribuídos. 

    Hoje, relembro que eu estava entre o bigodudo e os que estavam à mesa, de forma que esses não viam bem o que estava ocorrendo no balcão, mesmo por estarem atentos às suas conversas. De repente, o cara abriu a pasta e retirou um revolver Smith calibre 38, cabo de madrepérola, cano longo que mais parecia uma espingarda. Niquelado, brilhando mais que catarro em parede, mais parecia arma de colecionador. Com arma em punho e os dois copos na mão esquerda, dirigiu-se para os cervejeiros e colocando os copos diante deles ordenou sério, mais vermelho que um pimentão.

    - Pronto, o desejo de vocês está realizado. Queriam tomar uma cachaça tirando gosto com meu bigode? Então comecem a beber, antes que eu comece a atirar.

    Nesse tampo, eu pagava pra ver qualquer um se lascar e varava as noites para ver uma luta de boxe pela televisão. Uma cena daquelas só nos melhores filmes de cawboy com John Weyne. Afastei-me no sentido contrário e disse comigo mesmo: “Agora a merda vai esquentar e eu só saio daqui quando ela ferver!”

    O pistoleiro estava hirto, impassível e agora segurava a arma com as duas mãos, enquanto os dois gaiatos continuavam num beco sem saída. Entre beber ou morrer, conjugar o primeiro verbo seria muito melhor e sensato. Quase ao mesmo tempo, ergueram os copos e começaram a engolir o líquido. Aos engasgos e tosses, beberam até a última gota, com os olhos marejados pela queimação do álcool. 

    Ao final, o bigodudo lhes disse:

    - Agora chispem daqui pra fora urgente, que já estou começando a ter raiva de vocês.

    Imediatamente, os dois desapareceram como fumaça. O pistoleiro pagou a cerveja, as duas doses e saiu pela porta contrária.

    Vai que um dia, eu e Cláudio nos encontramos no refeitório do Exército, assentados frente a frente na mesma mesa para o almoço. Eu queria puxar conversa, mas foi ele quem falou primeiro:

    - Você bebe? - perguntou-me.

    - Bebo, sim, mas se você quiser, deixou hoje mesmo. - respondi.

    - Oxente, rapaz, que é isso?

    - Eu estava naquele dia, lá no bar da Campos Sales, quando você fez aquelas escaramuças.

    Ele pensou um pouco, como se estivesse remexendo as gavetas de sua memória e depois desatou a rir, concluindo:

    - Meu bigode custou a crescer, por culpa daqueles dois irresponsáveis.

    Eu vi e conto.

    São coisas da minha terra!

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