Arquivo Pessoal

Mozaniel Almeida

Piauiense de coração e alma, contador de causos por vocação e técnico em Agrimensura por formação. Vive em Aracaju desde 1989, onde segue espalhando seu bom humor e amor pela terra natal. Autor do livro É Causo? Deixa que eu conto, também participou de obras coletivas. Não é poeta nem filósofo — é só um cabra arretado que gosta de contar histórias.

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Cego, guia de cego

Cego, guia de cego
Cego, guia de cego (Foto: criação IA)

Aqui em Sergipe, temos uma “dupla de dois”, Prof. Alberto e Madame Rosana, que se dizem videntes, capazes de abrir todos os caminhos (pena que não abrem rodovias). Curam de unha encravada a apoplexia, de AIDS a coceira no sovaco, de namoro complicado a casamento desfeito. Desvendam o pretérito, o presente e o futuro do subjuntivo perfeito. Com eles, não tem embromação e isso não é “merchandising”. A dupla faz programas radiofônicos em quase todas as cidades do interior sergipano e, sem dúvidas, goza de certa credibilidade entre os inocentes e desesperados.

Um dia, o Prof. Alberto ia atravessando a avenida em frente a Rádio FM Ilha, em Propriá-SE, quando, não se sabe de onde nem a mando de quem, apareceu um ciclista em alta velocidade, montado em seu “camelo”e, sem noção de tempo e distância, ao ver que poderia atropelar o pedestre, meteu o pé no pneu dianteiro da “magricela”, já que a bicha não tinha freio, mas que de nada adiantaram seus recursos. Num piscar de olhos... Catipumba...! Caíram os dois e a bicicleta por cima de ambos.

Daí pra frente, o que se ouviu foi uma acirrada troca de “amabilidades”... O tal professor Alberto acusou o ciclista de “inresponsave”, maluco, barbeiro e fila da pu... e outras maravilhas. E o ciclista, por sua vez, disparou também um monte de impropérios. Mas o que mais me chamou a atenção foi o raciocínio rápido do ciclista ao dizer:

- E você, seu professorzinho de merda! Na verdade, você é um baita trambiqueiro, mentiroso, espertalhão. E fila da pu... é a sua mãe. (é de lascar, acaba sobrando um pouco pra mãe!) Se você soubesse mesmo adivinhar o futuro, deveria saber que seria atropelado hoje e, portanto, não deveria ter saído de casa. Bem feito!

Eu, que estava do outro lado da avenida, controlando-me para conter o riso, não pude reter a gargalhada. De imediato, me veio à mente o Soneto Acendedor de Lampiões, de Jorge de Lima:

“Triste ironia atroz que o senso humano irrita,

Ele que doira a noite e ilumina a cidade,

Talvez não tenha luz na choupana em que habita”.

E há, ainda, outra citação bíblica de Lucas 6,41: Tira primeiro a trave de teu olho...

Pena que o dito Prof. Alberto não tenha conhecimento disso, o que não me é novidade alguma Entretanto, ele deveria ter, pelo menos, consultado seu próprio horóscopo.

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