Arquivo Pessoal

Mozaniel Almeida

Piauiense de coração e alma, contador de causos por vocação e técnico em Agrimensura por formação. Vive em Aracaju desde 1989, onde segue espalhando seu bom humor e amor pela terra natal. Autor do livro É Causo? Deixa que eu conto, também participou de obras coletivas. Não é poeta nem filósofo — é só um cabra arretado que gosta de contar histórias.

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Calcinha rosa-choque

Calcinha rosa-choque
Calcinha rosa-choque (Foto: Gerado por IA)

    Quem foi criado em casa com terreiro e quintal, não se acostuma com apartamento nem que esse seja de ouro maciço. Para ser explícito, (não gosto da palavra explicito porque pode remeter a outro assunto) não quer nem ouvir falar em “apertamento”.
    Comigo não foi diferente, só que  aconteceu um fato não imaginado: os filhos foram casando, indo embora e eu quebrando as beliches para ninguém voltar. A casa, antes apertada, agora, parecia um castelo medieval. Estava tão esquisito que eu me sentia um adventício dentro de minha própria casa. Assim, em má hora, resolvemos alugar a casa e morar num apartamento alugado, num condomínio do mesmo bairro. Com essa treta equacionada, ainda nos sobraria alguns trocados se, e somente se, os nossos inquilinos fossem pontuais nos pagamentos e se não tivéssemos taxa de condomínio.
    Mudança de pobre, por si só, já é um desagradável espetáculo e só não foi pior porque nosso apartamento era no térreo. Condomínio de pobre é outro problema, pois o elevador social é o mesmo de carga, serviços e transporte, assim, fica em aberto o guichê de confusões e desentendimentos.
    Os móveis de hoje foram fabricados para se desmontarem na primeira mudança, ainda que seja de lugar e na mesma casa. Então, vocês já sabem o tamanho do prejuízo.
   As leis do condomínio foram inventadas pelo diabo. São tão ruins que seria mais fácil dizer o que era permitido. Ruins, mas sem elas não haveria como acumular tanta gente mal educadas no mesmo bloco.
    Eu não sabia que a minha “vizinha de cima” era tão descontraída e liberal. Não sabia e nem tinha necessidade de saber disso, acontece que seus encontros amistosos eram constantes e a “sonoplastia” era hi-fi e, ao que pareceu, a tecla “pause” estava quebrada. A trilha sonora era inconfundível e penetrava em nosso apartamento através do piso. Era como se alguém estivesse se afogando ou sufocada com os lençóis. Se minha mulher não tivesse o sono tão pesado, não sei o que poderia ter acontecido. Ainda assim, tudo transcorria bem, até que, um dia… 
    Eu sempre acordei cedo desde os tempos em que trabalhei no Exército. As primeiras horas da manhã, aproveitava para sair com o dog e para limpar a área que não era protegida por toldo nem com marquise. Numa dessas, encontrei uma calcinha cor rosa-choque caída no meu espaço térreo. Pelo “design”, vi que era algo muito avançado para o meu tempo, tanto que, devo ter passado uns dois minutos fazendo um exame acurado daquela peça feminina. Vi que havia umas aberturas que, sinceramente, não sei se facilitava ou atrapalhava o uso ou o desempenho. Eu não conhecia a vizinha, mas pelo tamanho daquela embalagem, o artigo que ela guardava... bem, deixa pra lá! 
    Fiquei numa sinuca de bico, por não saber se chamava a moça pela janela ou se eu subia dois lances de escadas para entregar o produto em mãos. As duas hipóteses eram, igualmente, constrangedoras e de improvável solução. Se eu a chamasse, minha mulher poderia acordar, se eu subisse, não teria uma justificativa razoável, caso ela me visse chegando. Sem saber o que fazer com aquele incentivo a bons desejos, inadvertidamente, enfiei-a pelo bolso traseiro da belrmuda e continuei com o meu trabalho. Esqueci o caso…
    Dois dias depois, minha mulher pegou a bermuda para colocar na máquina de lavar. Se tivesse uma nota de R$ 100,00 em cada bolso, decerto ela não notaria, mas aquela bomba H já estava chiando no meu rumo...
    O que dizer numa hora dessa? Creio que o melhor criminalista do mundo ficaria calado, aguardando o desfecho, para não agravar a sentença. 
    Eu não consigo entender as razões que fazem uma mulher perder, por completo, o sentido das coisas, do tempo e das probabilidades. Ela só acredita no inexequível, no imponderável e em suas fantasias. 
    Recuperar a credibilidade, nesses casos, é o mesmo que tentar colar uma taça de cristal com superbond.
    Bem, na primeira oportunidade, voltamos para nossa casa, onde estamos num marasmo sem tamanho, mas sem surpresas. 
    Se, por desventura, me ocorrer, novamente, algo parecido, atearei fogo na peça e colocarei as cinzas na pia da lavanderia com água para descer de tubo abaixo, pois comigo, o raio cai duas vezes no mesmo lugar. 
    São coisas que só acontecem comigo.
    

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