O Asa Branca

None
O Asa Branca
O Asa Branca (Foto: gerado por IA)

Já se passaram 48 anos desde o episódio sobre o qual me debruço neste conto. Até hoje ele tem poder de me causar remorso. Sim, remorso que é diferente de arrependimento.

Entre os amigos de minha infância tinha um gigante, até no nome. Sim, os gigantes têm nomes diferentes: Golias, Sansão e... Damião. Pois é, era um daqueles meninos grandões, que sorriem por qualquer bobagem e correm desengonçados no recreio. Era meu amigo, por trás de quem me escondia na hora do pega pra capar. Eu costumava testar a paciência do meu amigo com brincadeiras extras. No carreirinho do caminho para o riacho eu dava uns nós no mata-pasto e depois convidava meu amigo para brincar de corrida. Sabendo onde estavam os nós, eu saltava, enquanto meu amigão vinha atrás todo sorridente, tropeçava no nó e mentia a venta no chão chega a poeira levantava. Eu ficava na expectativa, sem saber qual seria a reação da vítima. Juro que eu torcia pra ele ficar bravo ao menos uma vez..., mas ele levantava, conferia as escoriações, sacudia a poeira e caia na gargalhada.

Um dia, indo para a escola, avistei um pé de ata com uns frutos maduros e bem atraentes. Mais de perto vi uma caixa de maribondos asa branca, daqueles que basta uma picada para dar febre. Na mesma hora antevi toda a cena; eu deveria ter sido um cineasta, porque as imagens vêm em minha mente como um filme e eu planejo o roteiro em um segundo. Já dei uma olhada em redor e encontrei uma vara ao longe. Trouxe-a para debaixo do pé de ata. Pronto, o palco estava montado.

Não via a hora da campainha do recreio tocar, para a gente ir “comer ata”. Meu amigo Damião já estava escalado por mim, e não chamei mais ninguém pra evitar testemunhas da treta.

Lá fomos nós... eu e meu amigo de peso. Mostrei-lhe as atas dizendo que lhe daria uma delas. Ele gostava de mostrar serviço e começou a subir afoitamente.

— Calma, Damião! Vai devagar senão a ata cai... tá maduriiiinha! – disse eu para evitar que assanhasse o asa branca antes da hora.

Dei uma olhada e vi que já tinha uma multidão de maribondos do lado de fora da caixa, peneirando as asas.

Meu amigo chegou perto e esticou a mão para alcançar o fruto.

Peguei a vara e espetei a caixa de maribondo com toda a malvadeza e sai correndo enquanto ouvia os gritos e gemidos inexprimíveis do Damião. Dessa vez não deu pra esperar qual seria a reação dele, pois havia grande possibilidade daquilo terminar bem mal. Era sexta-feira e eu corri direto pra casa. Desconfiado, passei o dia olhando da janela o que a vista dava, pra ver se o Damião aparecia. Não apareceu. Veio o sábado e meu amigo não deu notícia. A gente costumava começar a programação do sábado bem cedo. Íamos armar alçapões para pegar cochicho e canário. Ou tomar banho no poço da Cavaca. Mas meu amigo não deu as caras. Perguntei a meio mundo de menino que passava na frente lá de casa:

— Hei, tu viu o Damião?

Até que alguém respondeu: “Ele tá doente!”

Fiquei preocupado. Minha mãe, desconfiada perguntou:

— O que foi, Bidiínha, que tu tá num pé e noutro desde ontem?

No domingo Damião também não apareceu, e na segunda-feira eu cheguei cedo e vistoriei a escola a procura do gigante. Ele não faltava aula, mas não apareceu naquele dia.

Decidi ir na casa de meu amigo. Me aproximei tomando chegada, pisando em ovos. Escorei-me na porta e chamei:

— Damião!

— Entra Bidiínha, ele tá aí no quarto, se queimando de febre. - respondeu dona Maria.

Pensei: “morri!”

Pensei ter ouvido uns gemidos vindos do quarto do meu amigo. Criei coragem e entrei. Ele estava todo embrulhado e batendo queixo de calafrio febril. Entre um tremelique e outro meu amigo olhou para mim... fiquei esperando que ele esbravejasse alguma ameaça, mas ao contrário, sorriu e disse:

— Tu é covarde, Bidiínha, me deixou sozinho na boca do asa branca! E danou a gargalhar.

Pra ele não desconfiar gargalhei também. Prometi pra mim mesmo que nunca mais faria aquilo de novo. E cumpri.