Arquivo Pessoal

Mozaniel Almeida

Piauiense de coração e alma, contador de causos por vocação e técnico em Agrimensura por formação. Vive em Aracaju desde 1989, onde segue espalhando seu bom humor e amor pela terra natal. Autor do livro É Causo? Deixa que eu conto, também participou de obras coletivas. Não é poeta nem filósofo — é só um cabra arretado que gosta de contar histórias.

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A vovó paraquedista

A vovó paraquedista
A vovó paraquedista (Foto: Gerado por IA)

    A vovó paraquedista 

    Ainda bem que não irei, mas se eu fosse falar da origens do paraquedas, tomaria boa parte de seu tempo, mas só para azedar a garapa, digo que não foi o Leonardo Da Vinci o inventor daquela armadilha, #prontofalei!

    A História relata que o extinto Cine Rex de Teresina, que nós últimos anos, pertencia ao médico Davi Cortelazi e que funcionou até 2005, fora inaugurado em 1939, sendo, por muitos anos, uma das melhores atrações da cidade.

   Um dia, lá por 1946, meus avós Rosendo Cardoso e Antônia Gaurina foram a uma sessão de cinema. Isso não lhes era uma novidade, pois já o conheciam desde Portugal, mas em Teresina seria a primeira vez.

     Nesta noite, foram projetadas algumas cenas da Primeira Grande Guerra e nelas apareceram alguns lançamentos de paraquedas que nem de longe são como os que conhecemos hoje. Ainda assim, minha avó “cismou”que poderia construir um e ela mesma pular.

    De imediato, essa ideia ficaria hibernando até que fosse possível amadurecê-la.

    Os óbices não eram pequenos e o mais difícil era conseguir um avião. Por esse lado, o sonho não se realizaria. Pular da ponte metálica do Rio Parnaíba foi uma hipótese que teria todos os requisitos para ser abortada logo no início porque ela não sabia nadar. Ainda que se colocasse umas dez canoas circundando o espaço escolhido, seria uma operação temerária. Por fim, tinha a incredulidade de meu avô. Esse, sempre achou que minha avó atuava numa área intermediária entre “maluca de pedras e doida varrida”. Só que, agora, já era caso de camisa de força e internamento. Não seria com o aval dele que tamanha maluquice se realizaria. 

     Eu era pequeno, quando vi o segundo salto de paraquedas em Teresina, “não se lembro bem", mas foi em 1954/55, quando um paraquedista solitário pulou, de um teco-teco monomotor, no conhecido Campo de Aviação de Teresina, na junção do que conhecemos hoje como Avenida Santos Dumont, Av. Centenário, Rua Sergipe e Rua Paranaguá. A Avenida Centenário e Rua Paranaguá sequer existiam.

    Um salto que não durou nem 15 minutos entre a decolagem, salto e aterrissagem da aeronave. Um

espetáculo pífio que juntou muito mais de duas mil pessoas. O primeiro foi de minha avó e tinha, no máximo, uma centena de pessoas torcendo contra.

    O certo foi que quanto mais dificuldades apareciam, mais obstinada ela ficava. Assim, contra todos e contra tudo, ela comprou seda, costurou à mão, fez um quadrado de 2,00m X 2,00m e com barbante de sisal fez oito tendões de sustentação. O final dos tendões foram amarrados a um aro de bicicleta sem os raios, onde ele se alojaria para o salto. 

    Como bem disse meu avô: a arapuca voadora estaria pronta para a primeira vítima.

    É verdade, que mulher quando se mete a fazer uma loucura qualquer, “ou vai ou racha ou arrebenta a tampa da caixa”. Não deu outra! Minha avó foi até à beira do rio, contou seus planos para o salto a sete pescadores ( sete não, sete e número de mentiroso. Seis pescadores). Todos eles discordaram da ideia, mas como é certo que brasileiro paga para ver alguém se lascar, imagine para ver alguém se lascar de graça! Aceitaram.

    No dia 27 de setembro de 1953, um domingo de sol catariano, no meu aniversário, às 9 horas da manhã, minha vó Gaurina, de 65 anos, uns 6 kg acima do ideal, lisboeta de nascimento, caminhava, lentamente, sobre os dormentes da estrada de ferro, da ponte metálica, até então, a única ponte sobre o Rio Parnaíba, vendo as águas correndo, ao fundo, sob seus pés.

    Meu avô Rosedo exercitou o seu sotaque camoniano até o último minuto, tentando dissuadi-la. Fui vencido pelo cansaço.

    Posicionada entre as duas torres da ponte, com os seis canoeiros distribuídos de forma ordenada em círculo, segurando o paraquedas com uma das mãos e outra mão segurando o aro de metal, ela se jogou de uma altura estimada em 12 metros. 

    Eu juro pelo leite de mamão que vi isso. Estávamos de pé, eu e meu avô, à margem do rio. Meu coração pequenino mais se parecia um pilão de madeira, com três mulheres socando milho ao mesmo tempo.

    O que se viu em seguida foi algo assustador. Ela vestida num macacão encarnado por ela confeccionado, brilhava como fogo naquele sol de setembro! Na margem direita do Velho Monge, uma centena de pessoas olhava absorta, em seguida, alguns gritos de Ó MEU DEUS!

    No salto, o paraquedas feito, empiricamente, sem o mínimo conhecimento técnico, até que abriu, porém o empuxo foi mais forte que a gravidade.Três cordas romperam a seda e minha avó desceu em queda livre, rodopiando, depois de ter vencido metade da altura. 

  Felizmente, foi resgatada em tempo hábil pelos socorristas improvisados. Não teve fraturas, mesmo batendo de lado na lâmina d'água.

    Refeita do susto, ela prometeu que dobraria a aposta. Iria colocar duas capas de seda sobrepostas, que os barbantes dariam uma volta por cima das capas e voltaria para completar o sonho. Felizmente ou infelizmente, ela nos deixou antes. 

    Em 1953, pelo que sei, não tínhamos jornal impresso em Teresina e a Rádio Difusora passou batida. Poderia ter registrado o primeiro salto de paraquedas do estado. 

    Hoje, dia 22 de outubro, Dia do Paraquedista, deixo o registro e minha homenagem àquela vanguardista do salto no Piauí. 

    Hoje, quando vejo minha primogênita Luciana, sair de Sergipe para pular de paraquedas em Boituva-SP. descubro que essa desarrazoada veneta pode ser fruto da destrambelhada genética lusitana com o sangue de cabra da peste nordestino. 

    São coisas da minha terra.

    

         Aracaju-Sergipe, 22 /10/ 2025.

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