Arquivo Pessoal

Mozaniel Almeida

Piauiense de coração e alma, contador de causos por vocação e técnico em Agrimensura por formação. Vive em Aracaju desde 1989, onde segue espalhando seu bom humor e amor pela terra natal. Autor do livro É Causo? Deixa que eu conto, também participou de obras coletivas. Não é poeta nem filósofo — é só um cabra arretado que gosta de contar histórias.

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A mulher misteriosa

A mulher misteriosa
A mulher misteriosa (Foto: gerado por IA)


                                                                                 Coisas que só acontecem comigo - XIII
        
        Em 2013, eu trabalhava numa obra, a quatro quadras da do Terminal Rodoviário de Alagoinhas-BA. Numa terça-feira, saí a pé, para antecipar a compra de minhas passagens de final de semana. Quando eu estava retornando, passou por mim um carro preto que eu julguei ser um Ford galaxie, já fora de linha. Buzinou pra mim e, quando olhei, vi subir uma mão feminina do lado do motorista, acenando-me. 
        Confesso que fiquei encafifado. Eu não conhecia ninguém que tivesse um carro daqueles. Lembrei-me de minha concunhada Rosemary, mulher de meu compadre, irmão e cunhado Silvestre, só que eles tinham um Hyundai Azera. Além do mais, o que ela poderia estar fazendo em Alagoinhas? Logo esqueci.
          Ora, nem deu tempo de esquecer, porque o carro seguiu até a rótula, contornando-a e, retornando, parou silenciosamente à minha esquerda, com o lado do carona virado pra mim. Só então vi que não era um Ford e sim, um carro de colecionador, um Lincoln americano, modelo 1961. Aquilo não era carro pra sair por qualquer coisa nem a qualquer hora. Estava impecável, reluzindo debaixo daquele sol de verão. 
        Quando os vidros se baixaram e eu olhei pra o interior do veículo, o meu espanto foi dez vezes maior. Se o carro era lindo, a mulher, fada, bruxa, anjo ou o diaba em forma de gente era centenas de vezes mais. Ela usava um vestido de baile, fino e transparente, preto azulado metálico, da mesma tonalidade do carro, por mais estranho que pudesse parecer. Suas sandálias vermelhas de salto alto descansavam sobre o banco do carona. Pela marca, aquelas sandálias deviam custar mais caro que meu salário. 
        A mulher tinha uma voz suave, a dicção clara e eu não tive a menor dúvida de ela estava se insinuando sexualmente pra mim. Se tem uma coisa que as mulheres sabem usar como ninguém é seu poder de sedução. Seus gestos não eram sem propósito e isso ficou bem claro, quando ela deixou a alça do vestido escorregar pelo seu ombro, deixando à mostra um seio alvo, num contraste maravilhoso com o vestido. 
        Seu rosto era de uma beleza comum, não fosse pela boca sensual e os olhos azul turquesa, que de tão lindos chegavam a ser agressivos. O batom, o cinto e esmalte das unhas tinham a mesma tonalidade das sandálias. Como se costuma dizer hoje, ela estava mesmo com TPM, ou seja, “treinada para matar”! 
        Ela falou comigo como se me conhecesse, puxando para cima discretamente a saia do vestido, deixando à mostra suas belas pernas alvas e bem torneadas.
        - Rapaz, quem diria! O quê tu andas fazendo a essa hora por aqui? 
        - Eu trabalho aqui perto e tinha ido à rodoviária - respondi.
        - Eu sei! Entra aí, vamos procurar um lugar pra conversar e, por favor, dirija esse carro pra mim um pouco!
        Gelei! Caramba, se eu fosse solteiro, um convite daqueles não me apareceria nem com reza de cigana virgem! No trabalho, eu tinha horário flexível, de forma que chegar uma ou duas horas atrasado não mudaria em nada, bastava um telefonema. Mas sair daquele embaraço é que não estava fácil. Mas eu estava longe de casa, ninguém iria descobrir. Recusar aquele convite seria o mesmo que recusar um bilhete premiado da loteria federal. Meu lado homem me impulsionava para o trabalho e meu lado macho me empurrava carro adentro com a fúria de um vulcão. Não sei que perfume ela usava, mas recendia com suavidade. Sua maquiagem era discreta, mas não passava despercebida pela perfeição de quem fizera e de quem a usava. 
        - Ok, mas me diga uma coisa: de onde você me conhece?- perguntei.
        - Oxente! Conheço-te dessas quebradas!    
        - Ok, moça. Agradeço penhoradamente seu convite e você não imagina o quanto me é difícil recusar, mas com absoluta certeza, você está me confundindo com outra pessoa, porque não sou das quebradas! Eu gostaria imensamente de lhe acompanhar, mas não costumo, nesses casos, assumir o lugar de outrem. Além disso, meu horário já está se esvaindo. Se eu puder lhe ajudar em alguma outra coisa... 
        Após dizer aquilo, vi os vidros se levantarem e o carro sair lentamente no sentido da BR-101. Para minha maior surpresa o carro não tinha placas.
        Confesso que saí daquele encontro extenuado e vendo meu bilhete premiado a se perder, levado pelo vento. 
        No trabalho, contei o fato a alguns colegas, omitindo alguns detalhes. Mas assim com eu, ninguém conhecia o tal carro nem mulher alguma com aquelas características.
        Nunca mais vi o carro nem a pessoa, por mais que procurasse.
         A impressão que tenho é que escapei de uma fria, pois tudo isso aconteceu à luz do dia, às 13 horas, de um dia 13 de agosto de 2013.
 

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