Arquivo Pessoal

Mozaniel Almeida

Piauiense de coração e alma, contador de causos por vocação e técnico em Agrimensura por formação. Vive em Aracaju desde 1989, onde segue espalhando seu bom humor e amor pela terra natal. Autor do livro É Causo? Deixa que eu conto, também participou de obras coletivas. Não é poeta nem filósofo — é só um cabra arretado que gosta de contar histórias.

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A morte já existia antes da pandemia.

A morte já existia antes da pandemia
A morte já existia antes da pandemia (Foto: Gerado por IA)

*A morte já existia entes da pandemia

    Eu vi nascer a caneta esferográfica e, lamentavelmente, vi morrer a caneta (ainda tenho algumas) tinteiro. 

    Vi morrer a máquina de calcular mecânica Facit, as réguas de cálculos e vi nascer as calculadoras eletrônicas à pilhas. 

    Vi nascer e morrer o disco (Lp) longe play , também chamado de vinil, como vi morrer os anteriores de 78 rotações. 

    Vi nascer e morrer o mimeógrafo e assisti o funeral das máquinas de datilografias.

    Vi nascer rádio transistorizado, assim com vi nascer e morrer a fita cassetete, o vídeo cassete, o disquete e locadoras. 

    Vi semáforo passar de manual a automático e caminhão à manivela ganhar motor de partida. 

    Lamentavelmente, vi a morte do cinemascope em película e os filmes de máquinas fotográficas bateram as botas. 

    Morreu o cinema mudo do Gordo e o Magro. 

    Vi desapareceu a lança perfume, o mascate que vendia talco, água de cheiro num jumento de porta em porta. 

    Vi desaparecer a brilhantina e também os amoladores de facas itinerantes. 

    Vi quando chegaram e desapareceram as calças Lee, Ustop e as pantalonas, bem como o tergal, o nycron, as camisas Bonllon, Volta ao Mundo e saias plissadas. 

    Também vi quando se foram os tênis kichutes, os congas, os sete vidas, o sapato Vulcabrás, o cavalo de aço e Passo Dobles, 

    Vi quando nascerem as sandálias havaianas e quando morrerem os tamancos de madeira. 

    Vi nascer e morrer o Iê Iê Iê, a Tropicália e a Bossa Nova. 

    Vi quando se acabaram as bolas de meias e o futebol de rua. 

    Vi quando os meninos que vendiam pirulitos numa tábua de buracos e cavaco japonês também se foram.

    Vi desaparecer o papel carbono, quadro negro e giz, 

    Vi morrer o Código Morse e o macaco "chicão" ser trocado pelo macaco hidráulico. 

    Vi morrerem as profissões de radiotelegrafista, de ascesoristas, de alfaiate, de lanterninha de cinema e até de padeiro e leiteiro que vendiam de porta em porta, 

    Vi nascerem os pratos colorex e duralex, os copos e talheres descartáveis, as garrafas térmicas, o fogão a gás e gás de fogão, o forno micro-ondas, a panela de pressão e as garrafas plásticas. 

    Vi quando se acabaram os pontos de aluguéis de bicicletas. 

    Deixou saudades o teodolito. 

    Vi nascer o fio dental de boca e o de bunda, a asa delta do céu e o de bunda.

    Deixaram saudades as Missas celebradas em Latim. 

    Vi nascer e morrer o polioxibenzimetilenglicolanidrido*. 

    Vi quando chegou o ar condicionado e o telefone celular e quando morreu a TV portátil VHF/UHF.

    Via nascer a linha de nylon de pescar e vi quando esticaram as canelas a saudosa Maria Fumaça e o ônibus jardineiras. 

    Vi nascerem e morrerem o caminhão FNM, o fusca e a Kombe. 

    Vi desaparecerem os vapores dos rios navegáveis. 

    Vi morrer o relógio de algibeira à corda, o relógio de pulso mecânico com 18 rubis e os carrilhões de paredes. E vi também quando nascerem os digitais. 

    Vi nascimento e a morte dos orelhões.

    Vi morrer o Reporter Esso e o Reporter Corisco da Rádio Difusora de Teresina.

    Vi nascerem e morrerem as empresa aéreas Varig, Vasp e Transbrasil e vi quando se foram a Real e Aerovias.

    Desgraçadamente, vi o Hino Nacional deixar de ser cantado nas escolas e nascer o desrespeito aos professores.

    Pois é, a morte já existia bem antes do coronavírus.

*polioxibenzimetilenglicolanidrido = baquelite.

Se você não sabe o que é nem um, nem outro, ai danou-se tudo mesmo!

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