Arquivo Pessoal

Mozaniel Almeida

Piauiense de coração e alma, contador de causos por vocação e técnico em Agrimensura por formação. Vive em Aracaju desde 1989, onde segue espalhando seu bom humor e amor pela terra natal. Autor do livro É Causo? Deixa que eu conto, também participou de obras coletivas. Não é poeta nem filósofo — é só um cabra arretado que gosta de contar histórias.

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A família do Gordo

A familia do Gordo
A familia do Gordo (Foto: criação IA)

O casal vivia às turras. Os dois não se entendiam de jeito e forma. Nunca tiveram paz, mas se suportavam ainda que a duras penas. Era, praticamente impossível, um dia sem brigas. Serviam até sinônimo de confusão, qualificativo de contendas.

No bairro Vermelha, em Teresina, onde moravam num terreno baldio, se fizeram conhecer pelas desavenças, como a Família do Gordo. Brigavam entre si, sem molestar os vizinhos, salvo pela barulheira. Se não existiam agressões físicas, superabundavam os xingamentos. Hoje, olhando para trás, não vislumbro o mínimo grau de conveniências que service de adubo para aquela união, talvez, quem sabe, "As brigas nossas de cada dia". Pelo que se poderia imaginar, a promiiscuidade rolava solta, sem limites.

A turba, ou melhor, a Família do Gordo era construída do casal, um garoto de mais ou menos 7 anos e um casal de filhos adultos. Todos vivendo, desordenadamente, e sabe Deus como! Não sei dizer de onde tiravam o parco sustento, pois ali, ninguém trabalhava.

Um dia, talvez, pela "marvada da birita", água que passarinho não bebe, o Gordo bateu a caçuleta.

Na minha defectivel avaliação, era impensável que alguém vivesse em semelhante estado de miséria. Moravam debaixo de uma latada de palhas de babaçu que lhes dava pouca sombra durante o dia e nenhum abrigo, em caso de chuva, à noite.

Dormiam em redes toscas e um fogão feito por uma trempe de cinco pedras, um pote de barro, latas de óleos reutilizadas como canecos era no que se resumia a sua fortuna.

Um dos motivos para tamanha penúria era que o Gordo. em tese, o mantenedor da família, estava sempre em inconfundível embriaguez. Era um manguaceiro incorrigível.

Não sei que forneceu o caixão para aquele infeliz, mas para surpresa minha e de muitos outros, apareceu um mundaréu de gente para acompanhar o morto até o Cemitério Dom Busco. A solidariedade, às vezes, me confunde: ninguém o ajudava em vida, mas queriam enterrá-lo agora.

Se isso já era uma surpresa e tanto, imagine agora, a viúva chorando desbragadamente. Como seria possível que alguém sentisse saudades de um traste inútil, cuja única finalidade era causar tormentos?

Em determinado momento, choro descabido começou a provocar risos e até gargalhadas. Quem foi àquele enterro não se arrependeu e até desejou outros iguais.

No seu desespero, a viúva dizia:

- Esse infeliz achou da bater as botas logo hoje! Isso é hora de ninguém morrer?! E agora, o que será de mim? Com quem eu vou brigar todos os dias?

Os acompanhantes não se aguentavam de tanto rir. Um evento que venceu a barreira do, nos dizeres de hoje, surreal. Como poderia o triste contradançar com o holário?

A viúva falava quase aos berros, porém sem deixar dúvidas na interpretação:

- Esse diabo não prestava, mais eu gostava dele! Era com ele que eu desabafava, era com ele que eu brigava… e agora?! As pestes desses fi (filhos) num param em casa, ele também não parava, só vivia com a cara cheia de cana… e agora, eu vou brigar com quem?! Não vou te perdoar nunca essa desfeita!

Sabe aquele ditado: Há sempre um chinelo velho para um pé descalço? Pois é, nada é totalmente inútil. Só que, daquela vez, o pé ficou totalmente no chão.

Que Deus, na sua infinita misericórdia, tenha compaixão daquelas almas.

São coisas da minha terra.

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